burburinho

as horas

cinema por Mariana Zanini

Quando escreveu Mrs. Dalloway, em 1925, Virginia Woolf não poderia imaginar a repercussão que sua obra causaria tantos anos depois, muito menos que a história serviria de inspiração para a produção de um filme. Pois isso realmente aconteceu. O romance As Horas de Michael Cunningham, adaptado e inspirado no título da escritora inglesa, alcançou as telas em 2002 com direção de Stephen Daldry e rendeu vários prêmios e indicações ao Oscar.

O roteiro capta a angústia da alma feminina com uma sensibilidade impressionante, exatamente no mesmo molde em que Virginia compunha seus livros de temática introspectiva, que mais tarde influenciariam a primeira dama das letras brasileiras, Clarice Lispector. O motivo principal de Mrs. Dalloway (que tinha, inclusive, o título provisório de As Horas) é "um dia na vida de uma mulher", mas o que acontece no livro de Cunningham e também no longa-metragem vai além disto. O filme apresenta histórias paralelas de três mulheres em épocas diferentes, relacionadas de algum modo com a obra de Woolf. Uma é a própria escritora (brilhantemente interpretada por Nicole Kidman) em 1923, lutando contra a loucura e o tédio de viver no subúrbio londrino enquanto escreve Mrs. Dalloway. Outra é a angustiada Laura Brown (Juliane Moore), dedicada dona-de-casa do período pós-guerra e fã de Virginia Woolf; e a terceira, uma mulher moderna e contemporânea, Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que apesar de demonstrar aparente independência, permanece presa a seu passado.

As cenas simultâneas, como a hora em que as personagens lavam o rosto ou preparam-se para o café da manhã funcionam (e muito bem) como elos entre Virginia, Laura e Clarissa e seus dramas pessoais. É uma forma que Cunningham encontrou para solidarizar os conflitos internos da escritora (que culminam com o suicídio, logo no início do filme) com os de outras mulheres que sentem-se deprimidas e pensam, inclusive, em renunciar à própria vida.

Como acontece em Mrs. Dalloway, As Horas representa através de situações corriqueiras a luta das personagens para enfrentar seus fantasmas interiores, suas escolhas e decepções e o eventual sufocamento que pode gerar a rotina ou a acomodação a um modo de vida não desejado.

Este diálogo com a obra de Woolf resultou, enfim, em uma produção delicada, que não mostra apenas almas atormentadas e à beira da loucura, mas a sensibilidade que encontra-se dentro de cada pessoa. Virginia certamente aplaudiria de pé.


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