burburinho

panteão dos picaretas

miscelânea por Rafael Lima

O mais apropriado seria chamá-los criadores de caso, pois nem todos aqui são enganadores profissionais; ou ao menos não do tipo que engana a todos, menos a si mesmos: não raro, são vítimas das próprias armadilhas que montam. Alguns enriqueceram inacreditavelmente, outros foram à falência; alguns se tornaram heróis populares e símbolos de resistência, outros foram procurados pela polícia e caçados pelo seu país, e ainda alguns conseguiram estar nos dois papéis. Ficaram mundialmente famosos ou se exilaram, esquecidos. Fizeram o que fizeram por ideologia, por filosofia, por fé cega, por pura vontade de esculhambar, por ignorância, por dinheiro, por falta (ou excesso) de escolha. Por isso foram reunidos, aqui neste singelo panteão, sete nomes que servem de exemplo para acabar com essa história de ficar usando os outros de exemplo:

1. Andy Kaufman - Comediante judeu norte-americano que ficou conhecido por números de humor nonsense, em muitos dos quais a piada era o próprio público. Por exemplo, punha para tocar a música-tema do Super-Mouse e ficava cantando o refrão. Em frente a um auditório cheio, abria um livro clássico qualquer, bem gordo, e ficava lendo suas páginas no microfone. À medida em que ia ficando famoso, radicalizava nas pegadinhas: encenou ter quebrado o pescoço num desafio de telecatch e foi levado de colarinho duro ao hospital, ocultando o engodo até de sua família. Disfarçava-se como um cantor execrável, Tony Clifton, fazendo a todos crer que existia de verdade. Vegetariano convicto, morreu de câncer antes de completar quarenta anos. Em 2004, no aniversário de vinte anos de sua morte, começaram a surgir rumores de que ele não teria morrido: teria apenas se isolado e voltara a ativa escrevendo, veja só, num blog. Lenda urbana? Foi transformado em personagem de cinema no filme Man on the Moon e tem música do R.E.M. dedicada a ele.

2. Muhamad Ali - Campeão olímpico de boxe aos vinte anos, campeão dos pesos pesados aos 24, contra todas as expectativas, sobre Sonny Liston. Encurralava o espírito esportivo ao fazer trocadilhos e provocações com os adversários, nas entrevistas. Fanfarrão, careteiro, converteu-se abertamente ao islamismo pouco depois do título, abandonando o nome Cassius Clay e adentrando a seita Nação do Islã, sob tutela de Elijah Muhamad. Recusou a convocação para ir para o Vietnã ("I got no quarrel against vietcongs") e teve seu cinturão cassado e o direito de lutar revogado, no que talvez tivesse sido o seu período mais fértil de atleta. Dois anos depois, após uma verdaderia campanha mobilizada por vários jornalistas esportivos, aos quais inspirou memoráveis reportagens e artigos, voltou e recuperou o título. Nunca foi derrotado por nocaute, e no auge da popularidade era convidado para dar aulas magnas em universidades. When We Were Kings, documentário sobre sua defesa do título em 1974, contra George Foreman, ganhou um Oscar. É Fellow da empresa Apple.

3. Bobby Fischer - O mais jovem campeão de xadrez norte-americano, ainda adolescente. Venceu seis vezes o aberto de xadrez de seu país. Dizia gostar de esmagar o ego dos adversários, e de vê-los se contorcendo. Primeiro enxadrista a aparecer na capa da revista Sports Illustrated, na década de 60. Ainda bem jovem, começou a cobrar altas bolsas para participar de torneios, dinheiro que gastava mandando fazer ternos e roupas elegantes sob encomenda. Gostava particularmente da Argentina, onde tinha a chance de andar de cavalo e comer suculentos bifes de chorizo. Paranóico com a guerra fria, acusava os russos de jogarem em conjunto, armando resultados para retirarem-no do torneio (futuramente, mandaria arrancarem suas obturações de metal dos dentes por medo que fossem usadas para lavagem cerebral através da transmissão de ondas de pensamento). No campeonato de 1972, estressou meio mundo, ameaçando retirar sua participação se não lhe pagassem a bolsa que exigia, obrigando ao esvaziamento da platéia e ao desligamento das câmeras de televisão e faltando a jogos. Acabou derrotando Boris Spassky e tornando-se o primeiro norte-americano a se tornar campeão mundial de xadrez no século XX. Praticamente sumiu após isso, sendo visto no leste europeu, Califórnia, Filipinas (onde jogou a convite do ditador Ferdinand Marcos) e até Brasil. Perdeu uma pilha de quinquilharias (uma coleção de gibis antigos mexicanos, cartazes de filmes japoneses dos anos sessenta, um saco de dólares de prata) para o governo federal quando deixou de pagar a taxa de depósito à companhia que as guardava. Em 1992, repetiu a disputa comemorativa com Spassky, numa ilha dum milionário iugoslavo, o que lhe valeu uma ordem de prisão, porque se desenrolava o conflito na Bósnia e os cidadãos norte-americanos estavam proibidos de fazer negócios com a Iugoslávia. Reapareceu já no século XXI, tendo feito declarações contra os EUA por ocasião do atentado de 11 de setembro. Suspeita-se que esteja jogando xadrez pela internet, sob pseudônimo, em algum canto do mundo.

4. Chuck Barris - Mudou-se para Hollywood na década de sessenta com o estrito objetivo de trabalhar com televisão, arrumando subembregos até que tivesse a chance de emplacar uma de suas brilhantes idéias. Falsificou o currículo para arrumar emprego numa rede de televisão. Conseguiu emplacar o piloto de um jogo televisivo no qual, sem ter acesso visual, uma jovem solteira entrevistava três candidatos a namorados - The Dating Game. Foi um sucesso, que ele derivou para outros programas como The Newlywed Game, The Family Game e The Mother-in-Law Game, cujos prêmios eram pequenos o suficiente para motivar os competidores a estarem ali apenas pela chance de competir. Fundou uma produtora de tv administrando o comportamento dos funcionários de maneira bastante liberal. Cansado de caçar talentos nas ruas, trouxe a seleção para a frente da câmera no Gong Show, uma competição de calouros, que escreveu definitivamente seu nome na galeria dos grandes implantadores de lixo cultural na televisão. Abandonou o ofício aos poucos, e passou um ano morando e mofando numa suíte de hotel, durante o qual editou sua autobiografia, Confissões de uma Mente Perigosa, onde revelava ter sido agente e assassino da CIA durante os principais anos de produtor. Teria arrumado esse emprego por acaso, nos piores anos de dureza, e continuou levando-o em paralelo - ciceroneava o casal vencedor à uma cidade exótica para onde ia cumprir suas missões secretas. Alega ter participado da missão de assassinato de um antigo comparsa de Che Guevara no México, e ter tido um caso com uma sofisticada espiã européia, "Trisha" (Patricia). Sobreviveu a um câncer, e seu livro virou filme, dirigido por George Clooney. Ainda está vivo, morando em Manhattan.

5. Larry Flint - Insatisfeito com o mundo caro e blasé que a revista Playboy lhe apresentava, Larry resolveu criar sua própria revista, depois de trabalhar como gerente duma casa de strip-tease. Juntou-se aos amigos vagabundos e mandou pras bancas uma edição com foto de capa de Jackeline Kennedy meio desnuda no pior estilo papparazzo. Vendeu como água, acabou casando com Althea, uma das strippers locais, e foi empurrando cada vez mais para longe os limites editoriais, em sátiras escatológicas, closes ginecológicos e críticas ao puritanismo (o mesmo material-base de Hugh Hefner, aliás). Foi levado várias vezes aos tribunais, onde comparecia de capacete e fraldas ou com camisas de dizeres ofensivos. Num surto, converteu-se ao cristianismo, virando cristão renascido e passou a utilizar sua revista para divulgar a crença. Em atentado anônimo, levou uma bala na coluna, que o deixou paraplégico e acabou com sua carreira de crente. A imobilidade quase o levou à loucura e à dependência de drogas. Recuperou-se a tempo de ganhar a causa legal contra o reverendo Falwell (transformada em filme vencedor do Oscar de melhor roteiro por Milos Forman, The People vs. Larry Flynt) e expandir seu império de pornografia, lançando títulos como Barely Legal (de ninfetas recém-chegadas à maioridade) e erguendo uma imensa torre negra com o título "Flint Enterprises" em Los Angeles. Dizem que implantou uma prótese peniana comandada por joystick, que lhe permitiria restaurar o prazer perdido com o tiro na coluna e a morte por overdose de Althea. Hoje, um de seus maiores prazeres é apostar somas vultuosas no black jack nas mesas de Las Vegas. Durante o processo de impeachment de Bill Clinton, ofereceu um milhão de dólares para quem oferecesse provas de envolvimento de qualquer membro do Congresso em escândalo semelhante. Ainda está vivo.

6. Lenny Bruce - Judeu pobre, fez um pouco de tudo na vida antes de alcançar sucesso com seus números de humor, inclusive trabalhar na marinha mercante, por conta da qual visitou alguns portos na Europa e travou contato com leituras como Kinsey e Kraft-Ebing. Mudou-se para San Francisco, onde despontou nos palcos da vizinhança de North Beach, com roteiros recheados de comentários sociais em plena época da luta pelos direitos civis. Começou a ser observado de perto pela polícia e foi aos tribunais, pela primeira vez, acusado de violar o padrão moral da vizinhança por ter dito alguns palavrões em seu número. Ganhou o processo no tribunal sob alegação de que o padrão moral da vizinhança de North Beach não era lá essas coisas para ser violado como o acusavam (numa das casas onde se apresentava, as noites de quarta eram dedicadas aos shows de strip-tease amadores dos moradores da vizinhança). Começou a ser chamado para dar shows em mais e mais casas noturnas, onde aumentava mais e mais o tom das piadas, colocando na roda até mesmo a quase sagrada Eleanor Roosevelt. Por conta de uma rara doença, começou a tomar remédios à base de opiáceos, que levaram-no à dependência em heroína. Vários flagrantes resultaram em inúmeros processos em diferentes estados, envolvendo-o numa espiral de trabalho, perseguição, processos e estafa que foi se intensificando ao longo dos anos sessenta. A sequência levou-o ao esgotamento financeiro e físico, morrendo de overdose na segunda metade década, quando muito do que supostamente levou-lhe às barras do tribunal já era linguagem corrente nos meios de comunicação. Escreveu sua autobiografia em partes para a Playboy, só reunida postumamente no livro How to Talk Dirty and Influence People. Teve a vida retratada no filme Lenny, interpretado por Dustin Hoffman.

7. Hunter Thompson - Natural de Kentucky, sul dos EUA, foi o chamado delinqüente juvenil, organizando as arruaças e bebedeiras de sua turma de rua. Ainda menor de idade, foi preso pouco antes de se graduar na High School, o que impediu-o de ter o diploma (os companheiros de arruaça foram liberados da prisão por serem de famílias tradicionais, com maior influência política). Da prisão foi para o alistamento militar, servindo pela aeronáutica na Flórida, onde escreveu para a seção de esportes do jornal da base. Deu baixa e tentou escrever sua versão pessoal de The Great Gatsby, chamada Rum Diary, nunca terminada. Escreveu pequenas reportagens para diversas publicações até arrumar um emprego de correspondente estrangeiro na América Latina no começo dos anos sessenta, quando chegou a morar no Brasil, assistiu às greves, aos discursos de Jango e por pouco não presenciou o golpe de 64. Voltou aos EUA, mudando-se para San Francisco, onde assitiu à explosão dos hippies no bairro de Haigh-Ashbury (exatamente para onde tinha ido por causa do baixo preço dos aluguéis) e ao aparecimento de uma gangue de motoqueiros chamada Hell's Angels. A familiaridade com os últimos rendeu-lhe um livro que catapultou seu prestígio de repórter. Foi chamado para escrever na recém-criada revista Rolling Stone, por conta da qual foi cobrir uma corrida de dragsters em Las Vegas. Tomou tanta coisa junta que teve delírios a perder de vista. A reportagem foi para a cucuia, mas os delírios e a total incapacidade em cumprir um prazo e esculpir um parágrafo que fosse para a redação, levaram-no a desenvolver um estilo pessoal batizado por um amigo de "gonzo", com o qual passaria a assinar todas as matérias dali pra frente e cujo livro-síntese seria o relato da reportagem não feita: Fear and Loathing in Las Vegas. Virou ídolo da contra-cultura, nome respeitado no meio jornalístico, sobretudo depois de cobrir as prévias do Partido Democrata em 1972, no livro Fear and Loathing on Campaign Trail '72. Depois disso praticamente não concluiu mais nenhuma reportagem longa; limitava-se a torrar todo o seu adiantamento em drogas e extrair tudo o que o serviço de quarto do hotel fornecesse. Chegou a ir ao Vietnã para cobrir a guerra e ao Zaire, para a disputa Ali-Foreman, mas pouco fez. Dizem que se viciou em cocaína a partir de 71. Os direitos autorais lhe compraram um rancho em Aspen, onde concorreu a xerife (e perdeu) pelo Freak Party e mora até hoje, e passa o tempo dando tiros em pavões e falando mal do governo Bush. Há várias biografias a seu respeito, entre elas as escritas por E. Jean Carrol e Paul Perry (respectivamente, uma ex-namorada e um ex-editor), um filme biográfico e uma adaptação de seu trabalho maior, dirigida por Terry Gilliam.

Fazer uma lista dessas composta só por brasileiros seria pelo menos três vezes mais difícil, porque as fronteiras de tudo são menos sólidas no país do carnaval, onde marginal é herói e herói não tem caráter. Tudo parece movido pelas circunstâncias, torcedores rivais pulam carnaval juntos e ainda não decidiram se Garrincha era melhor que Pelé. Nessa farofa em que os valores se misturam e trocam de sinais ininterruptamente, é muito mais complicado estabelecer um quem é quem, senão definitivo, ao menos consensual para aquele momento. Porque, como alguém já disse, mais do que futebol, brasileiro gosta de torcer para futebol.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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