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jogos dos deuses

livros por Nemo Nox

Jogos servem só para diversão e passatempo, certo? Bem, para muita gente, os jogos podem ser bem mais que isto. Há os que se profissionalizam e fazem de um jogo seu ganha-pão, dos ratos de cassino aos milionários dos torneios de snooker. Outros, mesmo mantendo o jogo somente como um hobby, levam a coisa muito a sério. Tem quem jogue xadrez para exercitar o raciocínio lógico. Tem quem transforme suas aventuras de RPG em livros de fantasia. Tem quem acredite que os jogos têm, ou podem ter, ramificações místicas. Isso mesmo, da onda new age nem os jogos escapam.

Jogos dos Deuses, livro de Nigel Pennick, editado no Brasil pela Mercuryo, aborda esse lado místico dos jogos de tabuleiro e oferece uma visão a partir da magia e da arte divinatória. O autor não é novato no gênero. Tem no currículo vários livros, como The Ancient Science of Geomancy e Celtic Sacred Landscapes. Também já foi editor das revistas Arcana, Walrus, Templar e Practical Geomancy, entre outras. Não é novidade a ligação entre jogos e artes divinatórias. Qualquer cigana de parque de diversões lê (ou diz que lê) o futuro nas cartas, por vezes as mesmas que usamos para jogar um bom e velho pôquer. Jogos dos Deuses, porém, concentra-se nos jogos de tabuleiro, e apresenta alguns fatos interessantes e várias teorias curiosas.

Pennick oferece ligações entre alguns jogos e manifestações culturais da antiguidade como o xamanismo ou os oráculos. Claro que não há qualquer explicação científica para a previsão do futuro, simplesmente porque para nossa ciência isso é uma impossibilidade. Mas aparecem alguns pontos de contato entre jogos e matemática e entre matemática e misticismo, como seqüências numéricas ou padrões geométricos. É a partir daí que Pennick vai desenvolvendo suas teorias, passando pela geomancia, pela astrologia, pela adivinhação rúnica, até chegar aos tabuleiros.

Vários tipos de tabuleiros são analisados, seus significados místicos, seus aspectos cosmológicos. Algumas ligações históricas parecem tênues e controversas, mas Pennick não se deixa abalar. Ele diz, por exemplo, que "alguns historiadores especializados associam o xadrez ao primitivo jogo chinês de Siang k'i, muito embora outros considerem errônea esta associação". Esta dúvida não impede que o autor siga explicando os vínculos do Siang k'i com a adivinhação nem que afirme inabalável: "O xadrez, que é o mais conhecido e mais largamente disseminado dos jogos de tabuleiro dos tempos modernos, tem origem adivinhatória."

O xadrez não é o único jogo moderno abordado em Jogos dos Deuses. Aparecem vários outros, como o popular jogo de damas, o merels (também conhecido como nine men's morris), o tafl, o ludo, e até mesmo os quadrados mágicos, tabelas com números que são comuns em revistinhas de palavras cruzadas e outros passatempos. Mas é o xadrez que merece mais atenção no livro, inclusive em suas "versões não ortodoxas" (variantes do jogo que fogem às regras internacionalmente aceitas), como o xadrez Tamerlane (que possui peças adicionais: camelos e girafas) ou o zatrikon (jogado num tabuleiro circular).

No fim da leitura de Jogos dos Deuses, fica uma pergunta: afinal, é possível adivinhar o futuro através dos jogos? Apesar de Pennick forçar a barra para uma resposta positiva, é mais que evidente que não. Tudo isto pode ter algum interesse histórico ou servir somente de curiosidade, mas na hora de apresentar provas conclusivas, Pennick desconversa para não levar um xeque-mate.


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