burburinho

battlefield earth

cinema por Jade Boneff

Há não muitos anos, John Travolta era nome para saudosista dos tempos da brilhantina. Depois dos requebros da década de 70, o ator chafurdou na lama de filmes do tipo Olha Quem Está Falando e parecia ter caido no esquecimento até que deu a volta por cima, impulsionado por Pulp Fiction. Provou que sabia representar e foi inteligente o suficiente para tirar partido da fartura.

Fica difícil lembrar de tudo isto, no entanto, quando se vê um Travolta em sapato plataforma, dreadlocks de jamaicano e pele pintada de azul arroxeado. A coisa fica ainda pior quando se descobre que Battlefield Earth (No Brasil, A Reconquista) foi um projeto pessoal de Travolta, que lutou pelo filme durante dezoito anos. O livro em que o filme se baseia é enorme, nada mau, e foi escrito por L. Ron Hubbard, o criador da seita cientologia, à qual pertencem inúmeros figurões de Hollywood (incluindo o próprio Travolta). O livro pode ser bom, mas a adaptação para o cinema é de chorar. Travolta disse, em entrevista, que lamentava ter demorado dezoito anos para fazer o filme, o que resultou na perda do papel do mocinho (muito jovem para ele) e o empurrou para a pele do vilão, o alienígena Terl. O público lamenta que ele não tenha esperado outros dezoito anos.

A história é básica de obras de ficção-científica - a Terra foi atacada por extraterrestres. Neste caso, a batalha foi curta e dolorosa. Os psyclos dizimaram quase todos os humanos, escravizando o restante e passando a usar o planeta para exploração de recursos minerais. Johnny Goodboy Tyler é o herói, membro de um pequeno grupo descendente dos humanos que sobreviveram ao ataque. Escondidos e sem verdadeira noção do que houve com o planeta, eles vivem em uma sociedade primitiva, até que Johnny resolve se aventurar e acaba prisioneiro de Terl.

O maior buraco do roteiro é ignorar o tempo passado entre cada fase do livro. É certo que não se pode condensar duas mil páginas em duas horas de filme, mas sempre há o recurso do "seis meses depois...". Fica difícil convencer qualquer pessoa com neurônios ativos de que um grupo de humanos vivento em condições similares às da pré-história consegue pilotar Harriers, os famosos aviões de guerra americanos, com uma semana de treinamento (sem professor) e iniciam uma ofensiva contra a raça alienígena armada até os dentes. Difícil de engolir? Fica ainda pior. No livro, Terl é um gigante cruel e ambicioso, com um total desdém pela raça humana, à qual chama "os animais". No filme, Travolta é uma figura estranhíssima se equilibrando em botas de plataforma, com um senso de humor cínico e uma maldade absolutamente cômica. Dificílimo de levar a sério.

O pior é que, devido ao tamanho do livro, o filme conta apenas a primeira metade da história. Graças ao fracasso nas bilheterias, não há muito risco de termos um Battlefield Earth 2, o que levantaria três perguntas: Vamos derrotar os aliens? A humanidade vai sobreviver? Vamos agüentar outro filme assim tão ruim?


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