burburinho

a sala dos pavões

pintura por Nemo Nox

Na segunda metade do século XIX, o abastado armador inglês Frederick R. Leyland decidiu fazer reformas em sua mansão londrina. Para transformar a sala de jantar de maneira a exibir sua valiosa coleção de porcelana chinesa, contratou o decorador Thomas Jeckyll. Este foi o inocente início do que mais tarde ficaria conhecido nos meios artísticos como The Peacock Room (A Sala dos Pavões).

Como a sala de jantar era originalmente adornada por um quadro de McNeill Whistler, La Princesse du Pays de la Porcelaine (A Princesa do País da Porcelana), em posição de destaque sobre a lareira, Jeckyll resolveu consultar o pintor, que convenientemente trabalhava na redecoração da entrada da mesma casa, sobre as cores das janelas e das portas. Whistler aproveitou a oportunidade e se ofereceu para fazer pequenos retoques na sala, alguns toques de amarelo nas paredes para combinar com o seu quadro e alguns padrões geométricos nos painéis para combinar com uma porta de vidro. Leyland concordou com as alterações e voltou para Liverpool, onde tinha sua empresa e outra mansão.

Aproveitando a ausência do dono da casa, Whistler entusiasmou-se com as modificações a serem feitas na sala. Instalou um teto de metal dourado pintado com um padrão de penas de pavão, decorou as prateleiras no mesmo estilo, e pintou as janelas com pavões de rica plumagem. O artista ficou tão satisfeito com o resultado que não só convidou amigos e jornalistas para ver a sala mas também mandou uma carta para Leyland elogiando seu próprio trabalho ("a sala está viva com tanta beleza, brilhante e deslumbrante e ao mesmo tempo delicada e refinada ao último grau").

Quem não ficou muito satisfeito foi Leyland, que, não esperando gastos tão elevados por modificações que não havia encomendado, inicialmente recusou-se a pagar. Depois de alguma discussão, aceitou pagar metade da conta, e mesmo assim o fez em guinéus em vez de libras (uma libra valia 20 xelins e um guinéu, moeda em que tradicionalmente os artistas eram pagos, valia 21 xelins).

Ofendido com o desaforo e ainda aproveitando a ausência de Leyland, Whistler vingou-se alterando a sala novamente. Cobriu um painel de couro com tinta azul e sobre ele pintou dois pavões brigando. No peito de um deles, colocou penas prateadas em alusão às camisas de babados que Leyland usava. Na cabeça do outro, botou um topete prateado como a mecha de cabelo branco em sua própria cabeça. Entre as aves, no chão, as moedas que Leyland se recusava a pagar a Whistler. Para não deixar dúvidas sobre o significado da pintura, deu-lhe o título Art and Money or The Story of the Room (Arte e Dinheiro, ou A História da Sala). Whistler completou o conjunto com um tapete azul, batizou a sala como Harmony in Blue and Gold (Harmonia em Azul e Dourado), e nunca mais voltou a botar os pés ali.

Apesar da confusão envolvendo a sala, Leyland nunca alterou a decoração, a não ser pela inclusão de mais peças na coleção de porcelana chinesa. Depois da sua morte em 1892, quinze anos depois da conclusão da Sala dos Pavões, o conjunto foi transferido para uma galeria de arte em Londres, depois para a casa do colecionador Charles Lang Freer em Detroit, e finalmente para a Freer Gallery of Art em Washington, onde foi restaurado e pode ser visitado até hoje.


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