burburinho

tokusatsu

televisão por Flávio P.C. dos Santos

Na década de oitenta, o Brasil presenciou a invasão dos seriados japoneses exibidos pela Rede Manchete. E depois do sucesso de Jaspion e Changeman, as crianças da época ? e de certa forma também seus pais ? foram bombardeadas com inúmeras outras séries do mesmo estilo, todas apresentando um herói que combate o mal em episódios de trinta minutos filmados para a TV. Com o nome de tokusatsu ou live-action, este gênero televisivo tem uma origem antiga e complexa.

A história começa décadas atrás (mais especificamente nos anos cinqüenta), contém várias ramificações e continua viva. Com o passar dos anos, surgiram diversos heróis e inúmeros problemas para eles resolverem, envolvendo organizações espaciais, invasões alienígenas, monstros gigantes e afins. E de acordo com a aprovação que uma ou outra série tinha pelo público, seu formato era adaptado para criar uma nova, com pouquíssimas diferenças, que prolongaria o sucesso da anterior e assim por diante. Desta forma, surgiram diferentes subgêneros de tokusatsu que muitas vezes se confundem, tornando difícil a classificação de determinadas séries. Para evitar que tudo fique muito complicado, é melhor dar uma olhada no passado.

No fim dos anos cinqüenta, Godzilla fazia um enorme sucesso e conquistava platéias em cinemas do mundo inteiro. Quase na mesma época, surgiam heróis clássicos como Gekko Kamen e National Kid. A série Ultra chegava às telinhas pouco depois com o nome de Ultra Q. Mas só 1966 o Japão conheceria a verdadeira febre Ultra, com Ultraman, o herói que é a fusão de um alienígena com um ser humano, que com o poder da cápsula Beta se transforma em um guerreiro gigante. A idéia de colocar um herói gigante lutando com um monstro de proporções também avantajadas foi certeira e a partir daí foram criadas novas séries Ultra, como Ultra Seven e Ultraman Jack. Outros heróis foram lançados também para aproveitar o sucesso de Ultraman. Dessa maneira, surgiu a classe Kyodai Heroes (heróis gigantes).

Na década de setenta, os tokusatsu estavam com tudo no Japão e já começavam a se espalhar pelo mundo. A produtora da série Ultra era a Tsuburaya e até então dominava o mercado. Mas outras duas grandes produtoras, a Toho e a Toei Company, decidiram entrar na briga. É quando a coisa complica. A Toei Company, criadora de Gekko Kamen e National Kid, conseguiu respirar aliviada depois que lançou seu novo herói em 1971: Kamen Rider, que não tinha o poder de se tornar gigante mas sim de se transformar em um ser meio-homem-meio-gafanhoto. Com ele, foi possível fazer frente a Tsuburaya e, assim como Ultraman, Kamen Rider teve também inúmeras séries subseqüentes que consolidaram seu sucesso e são produzidas até hoje, fazendo parte do sub-gênero Henshin Heroes (heróis que se transformam). Este gênero é o maior dos tokusatsu, tendo muitas variações, entre elas Animal Heroes e Ninja Heroes.

Depois do sucesso de Kamen Rider, a Toei continuou inspirada e lançou Go Ranger em 1975, um grupo de cinco guerreiros do bem, cada um com o uniforme de uma cor (vermelho, azul, verde, amarelo e rosa). Mais uma vez, o público gostou da novidade, e a Toei aproveitou para produzir uma nova série no mesmo formato. JAKQ Dengeki Tai chegou à televisão em 1977 protagonizando quatro cyborgs de cores diferentes em combate ao crime organizado. A aceitação por parte do público não foi tão boa desta vez, porém mais um estilo nasceu e foi chamado de Sentai (termo militar japonês), sendo uma ramificação dos Henshin Heroes.

Como JAKQ não foi muito bem-sucedido, a Toei decidiu fazer uma nova tentativa, desta vez em parceria com a Marvel. Em 1979 foi ao ar a (agora famosa) Battle Fever J trazendo uma grande novidade ? literalmente. Desta vez, os guerreiros em uniformes coloridos poderiam contar com a ajuda de um robô gigante para enfrentar seus inimigos, e com isso nasciam os Super Sentai, sub-gênero de tokusatsu considerado uma ramificação dos Henshin Heroes. Os Super Sentai mais famosos aqui no Brasil foram Changeman e Flashman, produzidos nos anos de 1985 e 1986, respectivamente.

Outra ramificação dos Henshin Heroes foi criada também pela Toei em 1982. A série Utyu Keiji Gyaban veio para iniciar a fase dos Metal Heroes, heróis que se muniam de uma armadura metálica sempre que precisavam encarar seu inimigos. Logo depois vieram duas seqüências que prolongariam o sucesso desta série: Sharivan e Sheider. Não é preciso dizer que muitas (mas muitas mesmo) outras séries foram produzidas no mesmo estilo. Entre elas estão o famosíssimo Jaspion, Jiban, Metalder, Spielvan e outros. Existe até uma sub-divisão deste gênero (e a coisa fica mais complicada), os Police Heroes, heróis metálicos que agem em grupo lutando contra o crime ou monstros alienígenas. Não pode ser deixado de lado o gênero das heroínas ou Onna Senchi, fazendo parte ainda dos Henshin Heroes. Desde 1971 foram produzidas séries onde mulheres tomam a frente na luta contra o mal, mas aqui no Brasil a única série exibida foi Patrini, produzida em 1990.

Hoje em dia ainda são produzidos inúmeros episódios de vários tokusatu. Kamen Rider e Ultraman, por exemplo, já têm mais de vinte anos e continuam causando sensação no Japão. E nada impede de novos gêneros serem criados e aumentar essa lista de nomes confusos que formam uma rede de estilos. Muitos toksatsu estão até sendo reeditados pela Saban Entertainment, uma produtora americana. Nesses novos programas, normalmente Super Sentai, as cenas de luta são tiradas da versão japonesa, enquanto as cenas onde os guerreiros estão sem máscaras são refilmadas com atores americanos, tendo a história de cada episódio mudada para melhor se encaixar a nova roupagem. O mais famoso por aqui é o Power Rangers.

Um resumo. Dos heróis clássicos surgiram os Ultra, heróis gigantes que lutavam com monstros espaciais. Com o sucesso de Ultraman, outros heróis gigantes tiveram sua série e foi iniciada uma onda de Kyodai Heroes. Em contrapartida, um herói de tamanho normal que lutava usando socos e pontapés e tinha o poder de se transformar em algo como um homem-gafanhoto começou a causar enorme furor na audiência, nascia o Henshin Hero. Transformação foi a palavra que imperou daí para frente em muitos tokusatsu. O herói poderia se transformar em animal, ninja ou ambos. Ele poderia usar uma armadura metálica e ser categorizado como Metal Hero, ou então agir em grupo e ser chamado de Police Hero ou Sentai. Se tiver um robô gigante então, Super Sentai. Ainda assim seriam todos Henshin Heroes, mesmo se fossem heroínas combatendo extraterrestres.

Apesar de todos esses nomes, variações e detalhes, as séries são muito semelhantes, mesmo quando se trata de subgêneros diferentes. O motivo é que todas estão fundamentadas no cinema japonês das décadas de cinqüenta e sessenta onde monstros gigantes eram o máximo da ficção-científica e o mundo invadido por eles dependia de um exército especial ou de alguém dotado de super-poderes para se salvar. Mesmo assim o número de tokusatsu produzidos é incrivelmente grande e agrada o público há várias décadas. E até o Brasil acolheu tal sucesso.


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