burburinho

a morte de marlowe

teatro por Guga Stroeter

Em 1º de junho de 1593, era enterrado o poeta e dramaturgo britânico Christopher Marlowe. Expoente de uma geração definitiva que alinhavou os contornos existenciais de um modelo de homem que persiste até os nossos dias, Marlowe teve uma vida atribulada e uma morte misteriosa.

Apesar de sua reconhecida vaidade e popularidade, a notícia de seu falecimento precoce, aos 29 anos, chegou a Londres na forma de um vago boato: Marlowe teria morrido infectado pela peste que se abateu inclemente sobre toda a Inglaterra em 1593. Os primeiros registros escritos que fazem alusão ao fato de que ele teria sido assassinado, surgem apenas cinco anos depois do ocorrido, e são bastante imprecisos.

Em um texto poético de 1598, sem nenhum caráter documental, Francis Meres faz uma rápida analogia entre a morte do poeta Licophron e a morte de Marlowe, ambos assassinados por rivais. Essa versão prevaleceu durante séculos e foi adotada por sucessivos biógrafos. Em 1820, James Broughton, um colecionador de livros, contribuiu na evolução do deslindamento do mistério. Broughton encontrou em um arquivo da Igreja de St. Nicholas em Deptford um registro sintético e significativo na listagem dos enterros: "No dia 1º de junho de 1593 foi enterrado Christopher Marlowe, assassinado por Francis Archer". Nenhuma informação suplementar, mas parte do enigma parecia decifrado. Somente em 1925, ou seja, passados 332 anos, surgiu a evidência mais concludente: um relatório escrito em latim, nas páginas do London Public Office, descrevendo detalhadamente as circunstâncias do assassinato de Marlowe, e seguido pelo indulto do criminoso Ingram Frizer (e não Francis Archer, como descrito nos papéis da Igreja), assinado pela própria Rainha Elizabeth. A leitura do relato e a investigação da vida dos envolvidos, revelou uma trama surpreendente e complexa, com lacunas e desdobramentos que prosseguem envoltos em um instigante mistério.

Christopher Marlowe nasceu em Canterbury, em 26 de fevereiro de 1564, filho de um sapateiro, primogênito de cinco irmãos. Logo revelou um talento precoce, aplicado no domínio do latim e da gramática. Por sua evidente genialidade foi apadrinhado pela igreja local, que subsidiou seus estudos e o indicou à aristocrática universidade de Cambridge. Aos 19 anos, já estava irresistivelmente enfronhado numa vida repleta de aventuras, conflitos e poesia. Em 1583 já havia escrito Dido, Queen Of Carthage e Tamburlaine. Seu arrojamento ia além da poesia: Marlowe serviu de espião a serviço da Rainha Elizabeth, em Rheims, na França, num trabalho preventivo contra o evidente golpe tramado por Maria da Escócia e seus aliados católicos, na França e na Espanha.

De volta à Inglaterra, ingressou no círculo dos protagonistas da Renascença Inglesa. Marlowe convivia com mentes brilhantes como o astrônomo Thomas Harriot, o matemático Walter Warner, o escritor e navegador Walter Raleigh. Essa intelectualidade "avant-garde" combinava conceitos neo-gregos, de caráter amoral, com um pensamento racionalista, vendo o mundo à luz da comprobabilidade das evidências. O confronto com a mentalidade medieval vigente era inevitável. Naquela época, os ateus eram condenados à fogueira e as disputas evoluiam para a rígida arbitragem do código dos duelos. Um mundo, portanto, de falas eloquentes e de atitudes robustas. Um mundo prolífico em poesia, em conquistas militares, rico em arrebatamento sensual. Nada mais excitante para um jovem poeta curioso, brilhante e arrogante como Marlowe.

Os conflitos não tardaram a surgir. Em 1589, Marlowe e o poeta Thomas Watson são presos por matar a Willian Bradley em duelo, motivado pelas denúncias públicas de que Marlowe e Watson mantinham relacionamento homossexual. Os réus foram anistiados devido à atuação de amigos influentes. O mais poderoso deles era Thomas Walsingham, próximo da Rainha, mecenas das artes, amante de Marlowe. Nesse mesmo período, Marlowe frequentava uma sociedade muito peculiar, conhecida como Scholl Of The Night ou Raleigh's Circle. O procedimento principal do grupo era promover tertúlias onde textos sagrados eram submetidos ao crivo da concretude científica. Resultado: os associados verificavam a inverossimilhança dos escritos e concluíam pelo ateísmo. Além da iconoclastia sistemática, sabia-se que o grupo era composto quase que exclusivamente por jovens homossexuais, o que tornava a sociedade ainda mais vulnerável ao conservadorismo oficial. E volta e meia um deles era queimado vivo em praça pública.

Assim, a vida de Marlowe caminhava num abismal paradoxo: seus textos de teatro, repletos de carinho e amor romântico entre homens, eram um sucesso; enquanto sua atitude geral era subversiva e sua personalidade prepotente acumulava antipatias e inimizades. As acusações de ateísmo contra Marlowe tornaram-se progressivamente recorrentes, e mesmo a tutela do poderoso Walsingham não conseguia mais resistir às pressões dos opositores. O poeta Thomas Kid, preso no começo de 1593 portando literatura ateísta, torturado com roda e brasas, delata Marlowe como autor dos textos e ativo corruptor de jovens. Marlowe é preso e mais uma vez Walsingham intercede, conseguindo liberdade condicional para Marlowe, o que o obriga a se apresentar diariamente às autoridades até o dia de seu julgamento.

As evidências contra Marlowe crescem. Uma cópia contendo as blasfêmias atribuidas a Marlowe é encaminhada à Rainha, praticamente condenando-o à morte. Três dias depois, corre a notícia de sua morte. A causa? "A Peste" que matara milhares de pessoas, que já fechara teatros e transformara as ruas e parques em desertos. O local? Ninguém sabia ao certo. A repercussão é imediata e surgem diversos textos comemorando a morte de Marlowe. Nos primeiros anos ninguém o homenageia. Ele era odiado por seus colegas e por seus contemporâneos.

No laudo encontrado em 1925, a suspeita cena do assassinato é descrita com pormenores. O crime aconteceu em Deptford, uma pequena vila portuária nas margens do Tâmisa, a poucos quilômetros de Londres. Marlowe encontrou-se com Ingram Frizer, Nicholas Skeres e Robert Poley às 10 horas da manhã, numa taverna, provavelmente um prostíbulo, de propriedade de uma viúva chamada Eleanor Bull. Os quatro passam o dia conversando no jardim. No fim da tarde, Marlowe e Frizer discutem por causa da conta do jantar. Marlowe estava sentado (ou deitado) na cama e os outros três sentados à mesa de costas para ele, então Marlowe pega a faca de Frizer e o ataca por trás, ferindo-o superficialmente na cabeça, Frizer reage, toma a faca de Marlowe e o fere no olho, causando morte instantânea.

O texto do documento deixa muitas questões sem explicação. Que assuntos teria Marlowe com os outros três, provavelmente iletrados, durante um dia inteiro? Não parece pouco convencional uma discussão num cômodo onde três colegas ficam de costas para o oponente? Se Frizer estava de costas, por que Marlowe feriu-lhe na cabeça? Por que Skeres e Poley não separaram a briga para evitar que Frizer matasse Marlowe? Como acreditar em morte instantânea se de acordo com a avaliação de especialistas contemporâneos a dimensão do ferimento não era fatal? Por que não se conhece a localização precisa do túmulo e por que no atestado de óbito da igreja surge o nome de Francis Archer como o assassino? Por que o oficial de justiça foi tão crédulo e só colheu depoimentos dos suspeitos Poley e Skeres, amigos do homicida? Além disso, o documento foi assinado no mesmo dia por 16 testemunhas vindas de outras vilas, numa época em que não existia telefone, telégrafos ou trens. No indulto anexo, a inexistência de investigações posteriores, a facilitação da burocracia e a pressa da justiça fica mais aparente: o criminoso foi libertado em apenas 15 dias, enquanto que o processo normal tomaria, na mais breve hipótese, um mínimo de cinco meses. Pode-se concluir que os criminosos prepararam o relatório, e por isso, o laudo é uma farsa.

Frizer, Poley, Skeres eram capangas de Thomas Walsingham, protetor e amante de Marlowe. Os três faziam o serviço sujo: Frizer era falsário, Skeres ladrão, Poley um chantagista profissional. Todos trabalhavam ativamente como espiões do governo nas missões menos escrupulosas. Poley chegou da Holanda no dia do crime com informações secretas para Walsingham, e depois seguiu para a taverna. Na véspera do crime, Marlowe passou o dia na casa onde residia o amigo Walsingham, onde também morava Frizer. No dia em que foi anistiado, Frizer voltou a trabalhar com Walsingham em sua casa e lá permaneceu por mais 20 anos, até morrer. Fica óbvio concluir que Walsingham estava totalmente comprometido com a trama, antes e depois do crime. Mas qual motivo levaria Walsingham a decretar a morte de Marlowe? Ciumes? Traição política? Difícil acreditar nisso, pois se houvesse inimizade explícita, por que Marlowe passaria o dia conversando com os capangas de Walsingham?

Em 1955, o catedrático britânico Calvin Hoffman, publica sua tese e afirma: "Marlowe não morreu na ocasião do crime". Marlowe necessitava sumir de cena. Os capangas, orientados por Walsingham e Marlowe, vão a Deptford, uma cidade cheia de marinheiros e estrangeiros, escolhem um marujo qualquer e o convidam a beber e passar o dia no prostíbulo. No fim da tarde, matam o marinheiro e Frizer entrega-se às autoridades, pois já tinha o relatório pronto, o escrivão e as testemunhas compradas, e o indulto negociado. Afirmam que aquele cadáver é Marlowe, fato que as testemunhas coniventes, arrebanhadas nas cercanias, nunca poderiam contestar. Enquanto isso, Marlowe embarcava anônimo, em destino ao continente.

Do exílio, começa a enviar novos manuscritos para Walsingham, que pensa numa forma de publicá-los. Mas como operacionalizar isso sem se incriminar? Walsingham escolhe então um autor desconhecido e inexpressivo, e passa a pagá-lo para cumprir a função de testa de ferro. E os textos começam a ser publicados, cinco meses após o crime em Deptford. O nome do autor? William Shakespeare.


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