burburinho

joão cutileiro

escultura por Nemo Nox

Ainda hoje, tantos anos depois do renascentista Michelangelo e muitos mais ainda do grego clássico Fídias, a pedra continua sendo o material nobre da escultura. O mármore é ao mesmo tempo um desafio à habilidade do escultor e um deleite visual e táctil para o público. O português João Cutileiro (nascido em Lisboa em 1937) é um belo exemplo de como um artista pode transmutar a pedra e fazer dela pele macia ou escudo impassável. Quem viajar por Portugal vai encontrar estátuas feitas por Cutileiro em vários pontos do país, do Dom Sebastião, em Lagos, ao torso desnudo de mulher nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Ou, em escala menor, suas primorosas loreleis, série de minúsculas mulheres de mármore esculpidas com inesperado detalhe e pousadas em bases de pedra tosca.

Cutileiro aprofundou-se em alguns temas aparentemente díspares, de plantas e animais a guerreiros históricos. E mesmo suas mulheres de pedra, abundantes, variam tanto que se transformam em diversos subtemas, das enigmáticas bífidas às minúsculas loreleis, com sensuais torsos pelo meio. A verdade é que Cutileiro seduz-se (e trabalha para também seduzir o público) não pelas formas individuais mas pelo conceito de forma. O mármore pode ser o que quisermos que seja. Cutileiro gosta de repetir a história de como, ainda criança, ele descobriu a escultura num museu de Évora. Era um relevo grego mostrando as roupas e os pés de uma mulher, e a ilusão de realidade ficou marcada em sua mente infantil. Apesar de seu trabalho não ser ancorado no realismo, a idéia ainda é a mesma: fazer da pedra mais que a pedra.


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