burburinho

corpos ardentes

cinema por Nemo Nox

Lawrence Kasdan era um roteirista de sucesso. Escreveu os scripts de O Império Contra-Ataca (The Empire Strikes Back), segunda parte da saga Star Wars (mais tarde escreveria também a terceira parte, O Retorno do Jedi), e Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Arc), a primeira das aventuras de Indiana Jones. Com este currículo curto mas invejável, conseguiu facilmente recursos para fazer seu primeiro longa-metragem, Corpos Ardentes (Body Heat, EUA, 1981).

Ao diretor estreante juntaram-se atores e atrizes igualmente com pouca experiência cinematográfica. William Hurt, que havia feito apenas um longa-metragem, Altered States, de Ken Russell, e Kathleen Turner, que debutava na grande tela, eram os protagonistas. Além deles, outras figuras ainda em início de carreira no cinema, como Ted Danson e Mickey Rourke, apareciam em papéis secundários. A combinação foi perfeita. Kasdan construiu em Corpos Ardentes uma história em puro estilo noir dos anos quarenta (Double Indemnity e The Postman Always Rings Twice vêm logo à mente) mas ambientada nos anos oitenta. Durante uma terrível onda de calor numa cidadezinha da Florida, o advogado de segunda categoria Ned Racine (William Hurt) se envolve com Matty Walker (Kathleen Turner), esposa de um ricaço da construção civil convenientemente ausente. Entre escaldantes sessões de sexo, Ned e Matty planejam matar o marido traído e ficar com a fortuna. Só isto já daria um filme interessante, mas Corpos Ardentes ainda não está nem na metade. O que poderia dar errado dá certo, o que deveria dar certo insiste em dar errado, o inevitável e o inesperado acontecem com a mesma freqüência, e nem tudo é o que parece ser.

Kasdan soube reunir a dose certa de elementos clássicos do gênero noir (de ventiladores de teto e truques jurídicos a músicas antigas e femmes fatales) e de cinematografia contemporânea (como um cuidadoso uso de cores e primorosos movimentos de câmara). A narrativa é ao mesmo tempo envolvente, fazendo com que o espectador mergulhe na trama e seja tão iludido como os personagens, e distanciada, com detalhes prenunciadores do desastre (o carro dirigido por um palhaço, o patinho de brinquedo, etc).

O elemento erótico, completamente implícito nos anos quarenta, agora podia ser melhor explorado, e Kasdan não perdeu a oportunidade. Corpos Ardentes faz do elo carnal entre Ned e Matty um elemento fundamental da trama. Cenas como a da cadeira na janela ou a do gelo na banheira já fazem parte da enciclopédia da sensualidade no cinema.

Kasdan voltaria a fazer filmes interessantes e intrigantes, mas Corpos Ardentes continua a ser sua pequena obra-prima, filme que muitos críticos consideraram a melhor estréia de um diretor desde Cidadão Kane.


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