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titanic

cinema por Nemo Nox

James Cameron já era um nome respeitável em Hollywood, com títulos como O Exterminador do Futuro I e II, Aliens, O Segredo do Abismo e True Lies no currículo, quando dirigiu o filme mais caro já feito até então, Titanic (EUA, 1997), e também uma das maiores bilheterias de todos os tempos, recordista de público tanto no cinema como em vídeo, responsável por milhões de lágrimas ao redor do globo. E por que choram as platéias? Pelo magnífico transatlântico do título, que afundou após chocar-se com um iceberg no início do século? Não só. O hábil diretor e roteirista Cameron incluiu nos mais de cento e noventa minutos de projeção uma fictícia história de amor entre dois jovens, e é ela a principal responsável pelas lágrimas.

Em suas entrevistas, Cameron insistiu em caracterizar Titanic como uma história de amor, o que é apenas parcialmente verdadeiro. O público se emociona com o drama de Jack Dawson (Leonardo DiCaprio, o mesmo de Romeu e Julieta) e Rose DeWitt Bukater (Kate Winslet, de Razão e Sensibilidade), mas não é por isto que vão ao cinema. Tirem o navio da história e não temos um filme. Não por acaso, o título é Titanic, não Jack e Rose.

O navio, reconstruído em cenários, modelos e efeitos especiais, é indiscutivelmente a estrela do filme. A perfeição da reconstrução, o cuidado com cada detalhe, e a mágica dos efeitos de computador tornam o Titanic cinematográfico tão verossímil como qualquer navio do mundo real. E a história de Jack e Rose é inteligentemente construída de forma a fazer o espectador conhecer com eles todos os cantos do transatlântico, do luxo da primeira classe à alegria da terceira, do requinte dos camarotes ao calor da sala das máquinas.

Outro recurso inteligente é colocar a narrativa dentro de outra narrativa. A história de Jack e Rose é contada pela própria Rose, agora centenária, à equipe que tenta resgatar tesouros perdidos no Titanic afundado, transatlântico construído para milionários que acabou como residência de peixes e crustáceos. Assim, não só a platéia tem com quem se identificar diretamente dentro do filme (sim, eles também choram com a história de Rose), como surge a oportunidade para que Cameron explique, através de uma simulação feita por computador, como ocorreu o desastre. Quando o navio afunda no flashback, duas horas depois, não há necessidade de qualquer explicação técnica, o que permite ao espectador se concentrar no destino dos personagens.

Mas nem só de Jack e Rose está povoado o Titanic. O navio é como uma cidade flutuante, miniatura da estrutura social da terra firme. Da elite da primeira classe aos descamisados da terceira, todas os extratos da sociedade estão representados. O que abre espaço para a inevitável crítica ao descaso dos ricos com os pobres: quando a necessidade de evacuar o navio torna-se óbvia, os passageiros da terceira classe são trancados nos andares inferiores até que os endinheirados garantam seus lugares nos insuficientes botes salva-vidas. Ironicamente, sem perceber, o público repete o mesmo procedimento elitista. Ao mesmo tempo que se pergunta como alguém pode ser tão insensível a ponto de considerar uma classe social mais digna de sobreviver que outra, preocupa-se com o destino dos protagonistas sem se incomodar tanto com as centenas de figurantes que morrem afogados ou que despencam do casco inclinado (e como despencam bonito!).

DiCaprio e Winslet estão muito à vontade em seus papéis e até formam um razoável par romântico (apesar de Kate parecer bem mais velha que Leonardo, na verdade eles têm a mesma idade). Billy Zane (de Zona de Perigo e Revelações de um Crime) é menos feliz interpretando Cal Hockley, noivo de Rose, um vilão à beira da caricatura. Também um pouco exagerado é o seu cão de guarda Lovejoy, vivido por David Warner (que já havia naufragado no mesmo navio em S.O.S. Titanic, de 1979). Felizmente, o resto do elenco comporta-se muito bem, com destaque para a nova-rica Molly Brown (a oscarizada Kathy Bates, de Louca Obsessão) e para a elegante anciã Rose Dawson (Gloria Stuart, musa de filmes da década de trinta, como O Homem Invisível).

A trama central nada tem de inovadora, sendo apenas uma velha história de amor, mas quem arriscaria algo mais ousado numa produção de mais de duzentos milhões de dólares? Mesmo assim, Titanic cumpre sua missão com louvor, fazendo rir e chorar, e deliciando a platéia com assombrosos efeitos visuais. A parte mais fraca do filme são os diálogos, que por vezes beiram o ridículo, com frases como "o coração de uma mulher é um profundo oceano de segredos" ou "quando nada temos, nada temos a perder". Há também um passo em falso na última cena, uma infeliz tentativa de fazer algo parecido a um happy ending. Melhor é esquecer estes lamentáveis clichês e guardar espaço na memória para cenas mais marcantes, como a dos músicos tocando no convés durante a evacuação do navio, e para imagens quase hipnóticas, como a boneca de porcelana afundada na areia.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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