burburinho

walt disney e o domínio público

cinema por Nemo Nox

A corporação Disney gasta todos os anos milhões de dólares em advogados e lobistas para garantir que seus personagens não caiam no domínio público. Cada vez que o copyright sobre o famoso Mickey Mouse chega perto do seu prazo de validade, as leis dos EUA são alteradas para alongar o controle, impedindo mais uma vez que os personagens disneyanos possam ser utilizados gratuitamente pelo público. Ironicamente, porém, grande parte dos sucessos cinematográficos dos estúdios Disney são adaptações (em vários casos, deturpações) de material extraído do domínio público.

O primeiro desenho animado com o ratinho Mickey, Steamboat Willie (1928), nada mais é que uma paródia do filme Steamboat Bill, Jr. (1928), dirigido e estrelado por Buster Keaton. Walt Disney lançou a carreira do seu personagem mais popular fazendo o que hoje os advogados da sua empresa não permitem que seja feito com suas criações: reciclando material original produzido por outros autores.

Mergulhando no domínio público para buscar inspiração, os estúdios Disney iniciaram na década seguinte uma série de longas-metragens que dura até hoje. Snow White and the Seven Dwarfs (1937) se inspirou no conto infantil dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Pinocchio (1940) é uma adaptação do livro do italiano Carlo Collodi. Fantasia (1940) mistura trechos inspirados em temas musicais eruditos (a sinfonia pastoral de Beethoven ou a sagração da primavera de Stravinsky) ou em poemas clássicos (Goethe em O Aprendiz de Feiticeiro ou Hoffman em O Quebra-Nozes). Cinderella (1950) saiu de um conto de Charles Perrault, Alice in Wonderland (1951) do livro de Lewis Carrol, Peter Pan (1953) do livro de James M. Barrie, e Sleeping Beauty (1959) é outra história de Charles Perrault. Mais recentemente, The Sword in the Stone (1963) deu nova roupa ao mito do rei Arthur, The Jungle Book (1967) parafraseou o livro de Rudyard Kipling, e Robin Hood (1973) foi novamente buscar um mito britânico.

O que é reconhecido como o renascimento dos estúdios Disney começou com The Little Mermaid (1989), adaptação do conto de Hans Christian Andersen, e seguiu com Beauty and the Beast (1991), do autor francês Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, Aladdin (1992), saído diretamente do clássico oriental As 1001 Noites. The Lion King (1994) bastardiza Shakespeare, Pocahontas (1995) adultera um episódio da história dos EUA, e The Hunchback of Notre Dame (1996) destrói o livro de Victor Hugo. Hercules (1997) vai beber na mitologia grega, Mulan (1998) se alimenta de uma fábula chinesa, Treasure Planet (2002) transforma em ficção-científica a aventura de piratas de Robert Louis Stevenson.

Todos estes filmes foram possíveis porque os autores das histórias originais já estavam mortos e as obras já haviam caído no domínio público, possibilitando reproduções e adaptações. Walt Disney morreu em 1966. Muitos dos personagens criados por ele e por sua equipe deveriam estar no domínio público, entre eles Mickey, Pluto, Pateta e Donald, não fosse pelas sucessivas alterações (mais de dez nos últimos quarenta anos) nas leis de copyright promovidas pelos estúdios Disney e outras mega-empresas interessadas em eternizar direitos já expirados. É hora de libertarmos o rato e seus amigos da injusta prisão corporativa.


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