burburinho

kraftwerk

música por Maurício Alves

A eletrônica não era novidade na música alemã. Na década de cinqüenta, Karlheinz Stockhausen já fazia suas experiências no centro de pesquisas de Darmstadt. No final dos anos sessenta, um de seus discípulos, Holger Czukay, seguiu o caminho do rock e fundou o grupo Can, que também utilizava a eletrônica. Pouco depois surgia o Kraftwerk, que não só inovou no gênero mas também alcançou um grande sucesso internacional.

O grupo nasceu em 1970, inicialmente formado por Ralf Hutter e Florian Schneider-Esleben. Os primeiros discos ainda eram num estilo que poderia ser chamado de psicodélico, lembrando grupos como Can, Tangerine Dream, e até mesmo Pink Floyd. Por volta de 1973, entraram no Kraftwerk Wolfgang Flur e Karl Bartos, e começou uma nova fase, com o enfoque de música eletrônica dominando discos como Autobahn, Trans Europe Express e The Man Machine.

Trans Europe Express merece um parêntesis pela maneira até então inusitada com que o grupo utilizou a percussão eletrônica em seu arranjo, no qual é simulado o ritmo de uma locomotiva em seus diversos movimentos. Villa-Lobos à parte, evidentemente... Dessa música já se disse que "elevou a bateria eletrônica à categoria de instrumento musical". Ainda neste álbum, consta Metal on Metal, na qual se distingue o som de chapas de metal caindo umas por sobre as outras, em uma seqüência que dura vários minutos. Vale citar que o Kling Klang Studios, onde o grupo cria e trabalha suas músicas, atualmente equipado com todo tipo de equipamento necessário, inclusive, para um show, e totalmente móvel, ficava situado ao lado de indústrias metalúrgicas em Düsseldorf. Curiosamente, durante o show, na execução de Metal on Metal as imensas telas que são colocadas por detrás dos membros do grupo exibem cenas nas quais uma locomotiva se acopla aos demais componentes de uma composição.

O Kraftwerk continuou gravando discos e fazendo shows no mesmo estilo até cerca de 1986, e no início dos anos noventa alguns de seus álbuns foram relançados. Em 1997 e 1998, juntaram-se novamente para uma turnê, e depois Bartos e Flur deixaram o grupo. No final de 1999, Ralf e Florian gravaram o single Expo 2000 para a Exposição Universal de Hannover.

Rock eletrônico, tecno-pop, música robótica, seja qual for o rótulo escolhido o som do Kraftwerk causava estranheza e cativava ao mesmo tempo. Misturavam melodias simples e repetitivas, código morse, vozes alteradas por computador (trabalhadas com um vocoder, aparelho que permitia mesclar o canto com sons sintetizados), distorções, efeitos de mixagem. Seqüenciadores, hoje comuns em qualquer estúdio, já eram usados nos anos setenta pelo Kraftwerk, moldando seqüências simples e dando um toque "industrial" à música. O grupo conseguiu criar eletronicamente timbres novos que emulavam ritmos ancestrais, com um resultado hipnótico.

O pop mundial se viu inescapavelmente influenciado, de David Bowie a New Order, passando pelos rappers americanos. Os últimos admitem abertamente o surgimento do estilo na mistura, por estranho que pareça, da música das ruas com a batida do grupo alemão. Em alguns dos primeiros raps a invadirem as paradas de sucesso nos anos 70, é possível se identificar o MC fazendo a sua performance por sobre mixagens efetuadas, principalmente, nas seqüências percussivas de Trans Europe Express. Ainda hoje, a música do grupo é presença obrigatória em pistas de dança de todo o mundo.

O fôlego da música do Kraftwerk impressiona mesmo àqueles acostumados com as inovações constantes presentes em seus álbuns. A prova se deu em agosto de 2003, com o lançamento de Tour de France Soundracks, seu novo cd, cujo título, mais do que uma homenagem à corrida de bicicletas francesa, é uma ironia, pois a música original foi lançada há exatos 20 anos atrás, e desde então foi "adotada" pelos organizadores e fãs da corrida. O grupo, mais uma vez, surpreendeu aos críticos mais céticos. Classificado por alguns com palavras como "sublime" e outras do gênero, o cd já é um forte indicado para repetir o sucesso de Eletric Café e Man Machine.

De Tour de France Soundracks, na Europa lançado também em vinil, é formado por músicas cujos títulos identificam os componentes de uma bicicleta, como Titanium, e outras com o corredor, como Vitamin e Regeneration, por exemplo. Nelas o grupo levou a extremo o hábito, já conhecido do público, de trabalhar com melodias conceituais. Ao que parece, os quatro anos de intervalo desde o último trabalho valeram a pena. O público e a música em geral agradecem.


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