burburinho

sérgio porto

livros por Alexandre Inagaki

A obra de Sérgio Porto (1923-1968) é, indiscutivelmente, uma de minhas maiores inspirações. Motivos? Humor crítico, ouvido apurado e linguagem repleta de insights saborosos. Mais conhecido pelo pseudônimo Stanislaw Ponte Preta (nome inspirado por Serafim Ponte Grande, personagem de Oswald de Andrade), Sérgio é o autor de inúmeras frases que, de tão bem sacadas, vêm sendo perpetuadas geração após geração. Alguns exemplos?

- Se peito de moça fosse buzina, ninguém conseguiria dormir nesta cidade.
- Cachorro que cobra mordeu tem medo de lingüiça.
- Passarinho que come pedra sabe o que lhe advirá.
- A única coisa boa da televisão é o botão de desligar.
- A prosperidade de certos homens públicos no Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso de nosso subdesenvolvimento.
- Mais vale um filé no prato que um boi no açougue.
- Levou um susto e ficou mais branco que bunda de escandinavo.
- Sentiu que tinha lingüiça debaixo do angu.
- O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.
- Tirante mulher, a gente só deve recomendar o que experimentou e gostou.

Boêmio que adorava ficar em casa, workaholic bon vivant, humorista a sério. Sérgio Porto foi um homem repleto de qualidades paradoxais. E de atividades: jornalista, redator e apresentador de televisão, compositor, radialista, dramaturgo, bancário. Carioca da gema, cunhou sob a alcunha de Stanislaw Ponte Preta personagens marcantes como a Tia Zulmira, o Rosamundo e o Primo Altamirando. Mas seu legado maior talvez tenha sido a criação do FEBEAPÁ, o Festival de Besteiras que Assola o País. Tal denominação surgiu para compilar a cada vez maior coleção de frases, recortes de jornais, atitudes e resoluções imbecis da gente importante (sic) que mandava na gente. E isso, em plena ditadura.

Pois foi em 1966 que Sérgio Porto publicou o primeiro volume do FEBEAPÁ. Dentre as inúmeras asneiras colhidas pelo autor, destacam-se pérolas como o artigo publicado pelo jornal O Pulso, de Mato Grosso, que afirmava em uma de suas manchetes: "Coração mata por ano 50 por cento dos finlandeses". Título que levou o autor a dizer, logicamente: "Nesse caso morre metade este ano, no ano que vem a Finlândia acaba". Outro exemplo: o coronel Costa Cavalcanti, deputado pernambucano, afirmara que a candidatura biônica do Marechal Costa e Silva à Presidência cheirava a povo. "Mostrando um defeito olfativo realmente impressionante", complementou seu alter-ego Stanislaw.

E as besteiras continuavam dando mais que cará no brejo. Em Brasília, um Diretor de Suprimento proibiu a venda de vodca, alegando que era para combater o comunismo. Na TV, uma apresentadora, ao mediar um debate entre mulheres de várias religiões, concluiu: "Todas elas acreditam em Deus. É um consenso em comum". Durante a transmissão de um jogo do Palmeiras, um radialista narrou assim a entrada de um médico para tratar de uma contusão sofrida pelo craque Ademir da Guia: "Acaba de adentrar o gramado o facultativo esmeraldino, com o objetivo precípuo de atender ao descendente do Divino, peça fundamental da esquadra periquita!". Enquanto isso, a Estrada de Ferro Central do Brasil, preocupada em modernizar seus serviços, anunciou a contratação de distintas moças selecionadas para fazerem serviços semelhantes ao das aeromoças. Mas, como as incautas exerceriam suas funções em trens, resolveram por bem denominarem-nas de ferro-moças. Vaticinou o mestre: "Taí um apelido que promete dar em besteira a bordo".

Sérgio Porto morreu cedo demais, aos 45 anos de idade. Levou consigo Stanislaw, seu amor pelo samba e jazz e seu humor corrosivo, deixando para trás inúmeras viúvas e amigos inconsoláveis. Pena que o Festival de Besteiras continua assolando o País; e que sua obra não seja tão conhecida quanto deveria, apesar de permanecer viva, serelepe, deliciosamente cáustica e atual.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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