burburinho

the shadows

música por Ayrton Mugnaini Jr.

ocê sabe qual...? Ora, nem é preciso perguntar, é claro que você sabe qual é o grupo de pop-rock inglês mais influente de todos os tempos, aquele que tem sete letras no nome, era formado por guitarra-solo, guitarra-base, contrabaixo e bateria, estreou em discos acompanhando um cantor, gravava para a EMI e cujo guitarrista-base trouxe sua namorada estrangeira para participar de discos do grupo.

Que dúvida, são os Shadows! Caso você tenha se pensado em algum outro grupo inglês, lembre-se também de que o primeiro LP desse outro grupo dizia na contracapa ser "o grupo mais excitante e competente a aparecer desde os Shadows" (sim, depois o clichê mudou para o nome desse grupo mais novo) e de que uma de suas primeiras gravações foi justamente um rock instrumental chamado Cry For A Shadow em homenagem a eles. E neste novo século The Shadows, já quarentão e muito mais que "acompanhantes de Cliff Richard", continua influente.

A grande novidade da música pop na segunda metade dos anos cinqüenta foi uma mistura de rhythm & blues, dixieland, country, skiffle, música cubana e muito mais, a que se deu o nome rock and roll. Música simples, que qualquer um podia tocar, mas que, para soar decente, exigia vocação e entrega, a tão falada "autenticidade". Violões já bastavam, mas para tocar em grandes salas e lugares públicos o ideal era usar guitarra elétrica, mais fácil de amplificar sem microfonias e outros inconvenientes. A popularização da guitarra-contrabaixo, bem mais prática e barata que o "rabecão" acústico, facilitou de vez a disseminação deste tipo de música entre os jovens de todo o mundo, e a expressão "guitar group" tornou-se comum muitos anos antes de Kurt Cobain haver nascido.

Só que no pop-rock quem fazia sucesso eram os vocalistas ou solistas instrumentais, estes "guitar groups" eram apenas os acompanhantes e nem sempre recebiam algum destaque. Pode reparar: além de eméritos artistas-solo como Eddie Cochran, Chuck Berry e Little Richard (e, obviamente, dos grupos vocais de doo-wop), tínhamos Bill Haley com seus Cometas, Elvis Presley com Scotty & Bill, Joey Dee & The Starlighters e, na Inglaterra, Tommy Steele, Billy Fury, Vince Taylor & The Playboys, Johnny Kidd & The Pirates, Adam Faith e os Roulettes, Emile Ford e os Checkmates, Marty Wilde & The Wildcats, o Lonnie Donegan Skiffle Group, Gerry & The Pacemakers, Johnny & The Moondogs (estes só fizeram sucesso ao mudarem de nome) e... Cliff Richard & The Shadows. Os Shadows foram o primeiro grupo a surgir como banda de apoio e fazer sucesso por si mesmo. E mais: embora conhecidos como grupo instrumental, eram também cantores de respeito, chegando a gravar vários discos vocais.

Os Shadows são o típico grupo que se tornou mais que um grupo, constituindo hoje uma instituição e uma família, verdadeiros Demônios da Garoa do rock, com mais de quarenta anos de tradição e uma história que aqui tentaremos resumir. Os integrantes mais notórios são o guitarrista-solo Hank Marvin (nascido Brian Rankin) e o guitarrista-base Bruce Welch, além dos contrabaixistas Ian Samwell (autor de Move It e Dynamite e que saiu do grupo em 1958 por ser muito melhor compositor que músico), Jet Harris, Brian "Licorice" Locking (que entrou em 1962 e só ficou um ano), John Rostill (que substituiu Locking e faleceu num acidente em seu estúdio caseiro dez anos depois), o baterista Tony Meeham (substituído em 1961 por Brian Bennett) e o contrabaixista australiano John Farrar; muitos destes entraram e saíram do grupo até mais de uma vez. Jet Harris tem a triste distinção de "primeiro roqueiro inglês a ficar doido e sair de cena", devido ao abuso do álcool, e infelizmente é menos lembrado como o grande ancestral de Paul McCartney na liberação do contrabaixo no rock para além de duas ou quatro notas por compasso - incluindo um solo na faixa Nivram, de 1961, fazendo pelo rock and roll o que Jimmy Blanton fizera pelo jazz na banda de Duke Ellington nos anos trinta e quarenta.

Mas tudo começou em 1958, quando Bruce e Hank se mudaram de Newcastle para Londres e formaram vários grupos de skiffle (uma variante mais simples e popular de jazz, usando violões, kazoos e tábua de lavar roupa). Não demorou para formarem um grupo de pop-rock, com guitarras, baixo e bateria, The Drifters, acompanhando o cantor Cliff Richard. Ainda em 1958, Cliff e os Drifters foram contratados pela EMI, e arrebentaram logo no primeiro disco, Move It, considerado por muitos um dos melhores discos da primeira geração do rock inglês.

Muitos roqueiros fazem como aqueles entusiastas do futebol que homenageiam grandes times tomando-lhes os nomes; por exemplo, a cidade de Presidente Prudente tem (ou teve) seu próprio Corinthians. Do mesmo modo, os Drifters de Cliff nem imaginavam que um grupo vocal norte-americano de sucesso, chamado The Drifters desde 1953, iria ameaçar os garotos ingleses branquelos com um processo judicial. E em dezembro de 1959 o grupo mudou de nome, para The Shadows, ao que consta devido a estarem na "sombra" de Cliff. Mas ainda com o nome Drifters eles haviam começado a gravar sem ele, embora quase todos os discos de Cliff até hoje tenham acompanhamento do grupo ou pelo menos algum de seus integrantes.

Apache, Wonderful Land, Kon-Tiki, Blue Star e F.B.I. são apenas alguns dos muitos sucessos dos Shadows (além de regravações mais recentes como Equinox de Jean-Michel Jarre e Don't Cry For Me Argentina). Ontem como hoje, vale a pena garimpar os LPs e lados-B do grupo. Pergunte à banda paulistana Jet Black's, que, além de começar imitando os Shadows, tirou seu nome de uma gravação do grupo, Jet Black, composta em homenagem a Jet Harris, que havia resolvido deixar de ser loiro e tingira o cabelo de preto. E um dos maiores sucessos dos Jet Black's foi Theme For Young Lovers, tirada de um lado-B dos Shadows. Podemos citar ainda os Jordans e os Clevers (futuros Incríveis) como grandes discípulos dos Shadows, embora adicionassem outras influências ao estilo do grupo. No Rio de Janeiro, tivemos The Angels (mais tarde The Youngsters), que regravaram músicas do grupo inglês e acompanharam Roberto Carlos em quase todo seu segundo LP - imaginem os Shadows acompanhando o "Brasa" (Compare, por exemplo, Parei Na Contramão e Dynamite, gravação de Cliff Richard com os Shadows).

É claro que a influência dos Shadows foi muito mais longe. Quem mais rivalizou com eles foram os norte-americanos Ventures, que começaram seguindo o exemplo do grupo inglês, mas com muito mais garra e volume mais alto (talvez por serem de Seattle - aliás, há quem reclame dos Shadows por tocarem bem demais, soando muito limpos e exatos e até assépticos). Outro exemplo que podemos lembrar é a cantora francesa Françoise Hardy, cujo primeiro LP traz o crédito "com Roger Samyn e sua orquestra" - na verdade um quarteto que merecia nota dez em imitação dos Shadows. Ouça também a parte do meio de Kinda Cool, de 1962, e compare com a introdução de piano de Let's Spend The Night Together dos Rolling Stones; até o tom de ré maior é o mesmo. Isto para não mencionar os tantos rapazes que, em lugar das costeletas e topete de Elvis, preferiam imitar os óculos de Hank Marvin, com os aros mais grossos desde Buddy Holly - por sinal, eméritos gozadores, os Shadows lançaram em 1975 um LP com o trocadilhesco título Specs Appeal.

Os Shadows eram extremamente britânicos não só em sua música, mas também no senso de humor, bastando lembrar alguns títulos de suas gravações: Nivram (leia ao contrário), Rhythm & Greens, Snap, Crackle & How's Your Dad (trocadilho com "pops", que significa "papai" e estalo de discos de vinil), The Shadows Know (alusão ao seriado policial radiofônico The Shadow, exibido por nossa Rádio Nacional como O Sombra e outra possível inspiração para o nome do grupo) e See You In My Drums, obviamente incluindo um solo de bateria.

Os Shadows sempre deram seu toque pessoal - ou melhor, seu estilo - a sucessos de outros artistas, bastando lembrar The Lonely Bull de Sol Lake, hit de Herb Alpert, a Cavatina de John Williams (do filme O Franco Atirador), Muié Rendêra (com título The Bandit), Last Train To Clarksville (dos Monkees) e Day Tripper (dos Beatles, fechando o círculo vicioso de quem inspirou quem).

(A namorada de Bruce Welch a que nos referimos no início é Olivia Newton-John, na primeira gravação fora de seu país. Bruce e Farrar produziram um dos primeiros sucessos de Olivia, If Not For You - sim, aquela música de Bob Dylan - , e os hits da cantora incluem Let Me Be There, composta por John Rostill.)


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