burburinho

drácula

livros por Ana Elisa Antunes Vivani

Drácula não é uma criação acidental dentro do contexto literário inglês. É um produto da era vitoriana que evoca a grande tradição do fantástico e do sobrenatural. É especialmente uma herança dos autores românticos ingleses da virada do séc. XVIII para o XIX, como John Keats, William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge. Abraham Stoker não era escritor profissional, tendo trabalhado por muito tempo como diretor de palco no Royal Lyceum Theater, de Londres, mas leu todos os clássicos sobre vampiros até então existentes. Era fascinado pelo tema. Passou muito tempo no Museu Britânico pesquisando sobre vampirismo e costumes da Transilvânia. É certo que histórias envolvendo vampiros não eram privilégio dos ingleses, mas a singularidade desenvolvida pelo livro de Bram Stoker nos instiga a investigar os motivos para sua obra se dar dessa maneira.

Quando Drácula foi publicado, em 1897, Londres era uma cidade de vilas e bairros operários, de fábricas e indústrias que contrastavam com a sofisticação das classes altas, que valorizavam o decoro, o status, a moral. Fomentada pela era industrial e o pensamento racional, a sociedade vitoriana parecia não oferecer mais espaço para as antigas superstições e crendices populares. Aos poucos, os jornais deixavam de publicar notícias sobre o sobrenatural para divulgar as maravilhas da ciência. Entretanto, o que se constatará é que nas fímbrias da modernidade a mentalidade fin-de-siècle não era a única existente na Inglaterra. Havia uma atração pela decadência e pelo mórbido, pelo exótico e chocante. Permaneciam em todas as classes sociais superstições que apontavam para estreitas relações entre os sinais do corpo e a ordem cósmica. É nesse contraste que convivem tanto o interesse pelas últimas descobertas científicas quanto as tradicionais crenças pelo sobrenatural.

Drácula encontra-se nesse limiar paradoxal, pois sua estrutura é moderna, obrigando-nos a reconstruir a narrativa a partir dos fragmentos dos diários e correspondências dos personagens, e a esmiuçar a esfera privada para atingir a pública. E é numa dicotomia que pode ser representada pela racionalidade x irracionalidade, cidade x interior, vida urbana x vida reclusa, modernidade x tradição, ciência x sobrenatural, objetividade x subjetividade, dia x noite, o despertar x o onírico, Londres moderna x Romênia arcaica, que se encontra o cerne desta discussão.

O mote principal do livro é a luta das forças da racionalidade, e portanto do Bem, contra um ser além da normalidade, um morto-vivo, um nosferatu, existente há centenas de anos, e que é a própria essência do Mal, conseqüentemente anticonvencional aos ideais mesmos da modernidade. No entanto, paradoxalmente, essa criatura tem como inspiração uma história bem real: é um herói nacional na Romênia, um aristocrata que lutou contra a dominação dos turcos e que é cultuado e respeitado tanto entre camponeses e ciganos como entre a elite cultural romena.

Para Jonathan e Mina Harker, dr. Van Helsing e dr. Seward, Quincey Morris e Lorde Godalming, é a luta contra as forças da natureza, contra o que existe de primitivo, que foge do controle da racionalidade modernista. É nisso que reside o interesse do livro e é aí que está sua força. É nas entrelinhas do detalhamento extremado de todos os diários e correspondências que captamos o sentido desse espírito pré-científico, desse impulso racionalizador e domador da subjetividade. Todos esses fragmentos formados pelos diários e cartas são escritos em tom jornalístico, com preocupação cronológica e riqueza de minúcias, dando-nos a impressão de ser um discurso objetivo, confiável e linear. Porém, algumas vezes somos obrigados a recuar no tempo para verificar a simultaneidade de certas ações, como no caso do navio que chega desgovernado no porto de Whitby com toda a tripulação morta, o início da "doença" de Lucy Westenra, e a exaltação e fuga de Renfield do asilo dos alienados.

A vitória da racionalidade diante das forças indomáveis do oculto não está apenas na morte do conde, mas na urdidura da trama. É o pensamento racional que nos livrará do Mal, é o progresso da ciência, o surgimento do telégrafo, do gramafone, do gravador de cera do dr. Seward e da máquina de datilografar da srta. Mina. Porém, para lidar com o poder do sobrenatural, não basta a mentalidade científica, é necessário usar também os recursos das crenças tradicionais. Os procedimentos médicos do dr. Van Helsing, então, estão embaralhados por essa pré-cientificidade, pelo conhecimento do senso comum e por símbolos cristãos. A transfusão de sangue sem a verificação do tipo sanguínio dos doadores e receptores, a prática do hipnotismo, o uso de flores de alho para afugentar vampiros, a rosa branca que quando colocada sobre a tampa do esquife do morto-vivo o impede de sair, o farelo feito de hóstias que purifica o interior dos esquifes, o crucifixo que afasta vampiros, tudo isso faz parte do universo do conhecimento sobre o qual circula o dr. Van Helsing, que não nega a modernidade mas que se adapta a ela.

Um diálogo travado entre o dr. Van Helsing e o dr. Seward expõe nitidamente que a própria ciência parecia envolta em áura de misticismo, quando não encarada com receio e medo: "Explique-me, então, pois sou um estudioso do cérebro, como consegue você aceitar a prática do hipnotismo e rejeitar a leitura do pensamento. Vou então dizer-lhe, meu amigo, que em nossos dias a ciência e tecnologia eletrônicas realizam práticas e experiências que teriam sido consideradas ímpias e heréticas pelo próprio descobridor da eletricidade, práticas essas que até bem pouco tempo ainda teriam levado seus autores a serem declarados bruxos-feiticeiros, para, em seguida, serem incinerados vivos nas fogueiras da inquisição." O que se percebe aqui é que ciência e tecnologia são colocadas no mesmo patamar do ocultismo, como se ambas fossem igualmente inexplicáveis, como se também pertencessem à esfera do sobrenatural.

Todo o livro de Bram Stoker joga com as duas mentalidades coexistentes na época, fazendo com que nos deparemos com esses paradoxos o tempo todo. Parece que o autor condensou tudo o que havia de disponível: um pouco de ciência aqui, um pouco de ocultismo ali e os costumes da Inglaterra vitoriana funcionando como pano de fundo da história. Talvez o fato de nossa sociedade se deparar com os mesmos paradoxos seja a explicação para o livro ainda conseguir provocar grande interesse entre nós.


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