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conversa com bob carroll

entrevista por Nemo Nox

Robert Todd Carroll é o criador do famoso site The Skeptic's Dictionary (que tem também uma versão em português, o Dicionário do Cético, e foi publicado em livro nos EUA), fonte de consulta constante contra afirmações sobre milagres religiosos, fenômenos paranormais, práticas pseudocientíficas, e outras manifestações sem qualquer resquício de evidência.

Burburinho - Qual a sua definição de ceticismo? Que tipo de cético você é?
Robert - Ceticismo é uma atitude, não um conjunto de crenças. É a atitude do pensador crítico, que não aceita afirmações somente com base em autoridade, intuição, testemunho, etc, mas exige evidência de algum grau de probabilidade antes de concordar com qualquer proposição. Esta atitude está especialmente presente em relação a afirmações de fenômenos sobrenaturais e paranormais, mas não é limitada a isso. Até afirmações científicas devem ser tratadas com atitute cética.

Burburinho - Como o site The Skeptic's Dictionary se transformou em livro?
Robert - Ted Weinstein, um agente literário de San Francisco, me contatou com a sugestão de fazer o livro. Ele me deu algumas orientações para criar uma proposta e depois apresentou a proposta a várias editoras. Tivemos várias ofertas, mas selecionamos a do John Wiley por sua reputação no campo da publicação científica e porque queríamos fazer um livro de preço razoável.

Burburinho - Qual a ligação entre The Skeptic's Dictionary e seu outro livro, Becoming a Critical Thinker?
Robert - Becoming a Critical Thinker é um livro didático para os cursos de introdução à lógica e pensamento crítico. É bem amplo e cobre coisas como linguagem e pensamento crítico, mídia e outras fontes de informação, falácias de raciocínio, argumentos indutivos e dedutivos. Em alguns pontos os dois livros têm congruências, mas The Skeptic's Dictionary entra em mais detalhes sobre pseudociência, por exemplo.

Burburinho - Quantas pessoas estão envolvidas no projeto The Skeptic's Dictionary?
Robert - De certa forma, sou só eu, mas por outro lado existem muitas pessoas envolvidas. Já tive cerca de dez tradutores voluntários que passaram partes do site ou o site inteiro para oito idiomas. Recebo dicas, conselhos e comentários de centenas de pessoas. E tenho recebido assistência editorial de várias pessoas. Mas não tenho uma equipe. Ninguém trabalha para mim e faço todos os textos, tomo todas as decisões, e assim por diante.

Burburinho - Que tipo de retorno você recebe? Qual a relação entre mensagens de apoio e de repúdio?
Robert - Nunca fiz as contas, mas acredito que a relação é de uma mensagem de repúdio para cada cem mensagens de apoio.

Burburinho - Qual o seu artigo preferido no Skeptic's Dictionary? Por quê?
Robert - Essa é uma pergunta muito interessante. Nunca tinha pensado nisso. Não tenho um favorito, mas um grupo de artigos dos quais me orgulho particularmente porque juntos explicam onde as pessoas erram ao pensar sobre coisas estranhas: hipóteses ad hoc, leitura fria, reforço comunitário, desvio para a confirmação, navalha de Occam, efeito placebo, post hoc, falácia regressiva, pensamento seletivo, interpretação subjetiva, testemunhos e wishful thinking.

Burburinho - Como você explicaria o fluxo incessante de afirmações sobre o sobrenatural, o paranormal e o pseudocientífico, apesar da ausência de provas?
Robert - Não há uma única explicação, mas o conjunto de artigos que citei pode ajudar a explicar a popularidade dessas afirmações.

Burburinho - Que tipo de afirmações sem provas o incomoda mais? Por quê?
Robert - Acho que é a turma new age e suas bobagens sobre "energia", especialmente sua insistência que a física quântica validaria suas crenças em medicina energética. O que eles dizem não faz sentido e mesmo assim demonstram confiança em suas bobagens. Muito irritante.

Burburinho - Quem está vencendo a corrida, a fé ou o raciocínio crítico?
Robert - A fé.

Burburinho - Quem são seus gurus do ceticismo?
Robert - Martin Gardner, Carl Sagan, James Randi, Michael Shermer, Paul Kurtz, Ray Hyman, Joe Nickell, Susan Blackmore, e alguns outros.

Burburinho - Por que é importante ser cético?
Robert - Para mim, isso é como perguntar por que é importante ser racional ou ser um pensador crítico. A resposta é simples: o cético tem melhor chance de acertar, de chegar o mais perto posível da verdade. Todos os métodos humanos de investigação estão sujeitos à cilada do auto-engano, mas o ceticismo é o menos provável de se deixar arruinar por essa tendência tão humana. Fé cega, seguir gurus, usar intuição, seguir um credo ou um livro dogmaticamente, e outros desses métodos, têm se mostrado muito mais suscetíveis ao auto-engano e ao erro que os caminhos da ciência e do ceticismo. Nenhum método é perfeito, mas o ceticismo é o melhor dos métodos imperfeitos que temos.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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