burburinho

8mm

cinema por Nemo Nox

Houve época em que o mal era facilmente explicado no cinema: as pessoas nasciam assim. Eram os filmes em preto e branco não somente na forma mas também no conteúdo, onde os mocinhos eram sempre os mocinhos e os bandidos eram sempre os bandidos, ambos somente seguindo sua natureza inescapável. Mais tarde, vieram as teorias sociopsicológicas, atribuindo causas sociais para os desvios de comportamento, e os bandidos passaram a ter uma justificativa para seus atos - eram somente vítimas da sociedade. Em 8mm (EUA, 1999), Joel Schumacher busca explicações novas para a maldade.

Estruturado em forma de investigação policial, o filme conta a história de Tom Welles (interpretado por Nicolas Cage, ganhador do Oscar por Despedida em Las Vegas), um detetive particular que se especializa em casos simples e pouco perigosos para clientes da alta sociedade. Sua nova tarefa é descobrir a origem de um filmezinho caseiro que retrata, aparentemente, a morte violenta de uma adolescente. Trata-se somente de belos efeitos especiais ou é na verdade o testemunho em celulóide de um crime brutal e premeditado?

Assim, com o auxílio de um improvisado assistente cravejado de piercings e tatuagens (Joaquin Phoenix, que depois seria indicado ao Oscar por Gladiator), Tom Welles embarca numa viagem ao submundo do sexo pesado à caça dos míticos snuff (filmes pornográficos envolvendo mortes reais). O que começa como uma procura de provas da autenticidade do crime transforma-se aos poucos numa busca pessoal atrás das razões que levariam alguém a fazer aquilo. Para que Welles possa voltar ao seu mundo certinho, é preciso antes encontrar uma explicação para que toda aquela perversidade faça sentido. Só então se sentirá novamente seguro junto à filhinha e à esposa (Catherine Keener, que depois seria indicada ao Oscar por Being John Malkovich), num lar onde o máximo da maldade é um cigarrinho escondido.

Apesar do oscarizado Cage aparecendo em quase todas as cenas de 8mm, dois outros atores conseguem um brilho próprio em papéis menores. Peter Stormare (de Fargo) interpreta de forma divertidamente ególatra o diretor de filmes pornográficos Dino Velvet. E James Gandolfini (da série The Sopranos) faz um Eddie Poole brega e calhorda que todos adorariam odiar.

O roteiro de 8mm, assinado por Andrew Kevin Walker (o mesmo de Seven) arrisca-se numa estrutura que faz muito profissional de Hollywood se arrepiar: tem três clímaxes. Ou seja, depois de uma cena forte que poderia ser o final do filme, a história continua, até uma nova cena que parace mais uma vez ser o final, e continua ainda mais até um último clímax. Schumacher faz questão de evitar sutilezas e explicar muito bem a moral da história. No último clímax, que chega ao exagero temático de emular filmes de terror como Sexta-Feira 13 ou Halloween, com direito a briga de faca com um mascarado no cemitério em noite chuvosa, o vilão diz com todas as letras que não tem um motivo especial para matar, faz aquilo simplesmente porque gosta e porque pode. Uma idéia interessante, mas que dois outros personagens já haviam dito nos dois clímaxes anteriores do filme. A impressão que fica é que a história bem poderia ter acabado antes, na ótima cena do estúdio/garagem/armazém, sendo desnecessários todos os 123 minutos da fita.

Sobre o universo em que se passa a história, o diretor Joel Schumacher declarou: "Nem todo adepto de pornografia é um velho sujo que usa uma capa de chuva. Faz parte da hipocrisia puritana e dualista que temos na América do Norte, porque queremos ser conhecidos como pessoas que seguem os dez mandamentos; queremos ser religiosos, pessoas boas. Mas a pornografia não é só uma aberração ou um desvario de pessoas loucas, é obviamente uma forma de vida."


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