burburinho

marcas do destino

cinema por Nemo Nox

Eu queria fazer um filme sobre emoções humanas básicas, como o amor e a felicidade - as marcas e as máscaras de todos nós. O medo e a dificuldade de mostrar nossos verdadeiros sentimentos." É o diretor Peter Bogdanovich falando a respeito de Marcas do Destino (no original, Mask, literalmente, "máscara"), de 1985.

Bogdanovich começou sua carreira como ator teatral, mas logo voltou-se para o cinema, escrevendo críticas e ensaios para revistas como Cahiers de Cinema, Esquire e Village Voice. Antes de Marcas do Destino, dirigiu dez outros filmes, começando com Na Mira da Morte (Target) em 1968, com Boris Karloff no elenco, e passando por A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show), de 1971, indicado para oito Oscars e ganhador de dois (ator e atriz coadjuvantes, para Ben Johnson e Cloris Leachman), e Lua de Papel (Paper Moon), de 1973, também Oscar de ator coadjuvante (para Tatum O'Neal).

Marcas do Destino é baseado em fatos reais, e narra a história de Rocky Dennis (interpretado por Eric Stoltz), adolescente portador de uma rara doença que faz com que os ossos do seu rosto cresçam demais, transformando-o num verdadeiro monstro. Mas se a deformidade física leva a uma deformidade moral em muitos filmes de terror (A Mosca, da mesma época, é um exemplo que vem logo à mente), aqui ocorre o oposto. Rocky é um garoto normal, que ouve rock, planeja viagens pela Europa e sente a necessidade de um romance juvenil.

O nome mais conhecido no elenco era o de Cher, que interpreta Rusty Dennis, a anticonvencional mãe de Rocky. Cher tornou-se muito popular como cantora nas décadas de 60 e 70, e depois se dedicou ao cinema, tendo trabalhado com diretores consagrados como Robert Altman ou Mike Nichols. Mais recentemente, ficou também famosa por suas operações plásticas e seus modelitos escandalosos.

"Altman deixa o ator livre para interpretar", diz Cher. "Já Nichols é bem mais restritivo, ele pede que o ator faça exatamente o que ele tem em mente. Bogdanovich fica mais ou menos entre os dois, há uma troca constante de idéias." Por seu trabalho em Marcas do Destino, Cher dividiu com Norma Aleandro (de A História Oficial) o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes. Também no elenco de Mask estão Laura Dern e Sam Elliot.

É inevitável a comparação entre O Homem Elefante, de David Lynch, e Marcas do Destino. O comentarista Rubens Ewald Filho chegou a chamar este último de "Eu Era Um Homem Elefante Adolescente" (parafraseando o péssimo I Was a Teenager Frankenstein). Os temas são os mesmos. O protagonista feio por fora e bonito por dentro, a incompreensão e o preconceito da maioria das pessoas, as referências quase obrigatórias à história da bela e da fera, e assim por diante. Mas se o homem elefante John Merrick era um adulto com alma de criança, vivendo na opressão monocromática da era vitoriana, Rocky Dennis é um adolescente amadurecido, típico da ensolarada e colorida Califórnia pós-desbunde. O que só vem confirmar que pouco evoluímos em relação às nossas rejeições e inseguranças. Merrick é tratado como freak em parques de atrações ou como raridade médica em hospitais. Rocky só consegue uma relação de igualdade com o grupo de motoqueiros, eles mesmos excluídos da sociedade dominante. Com grande sutileza e sem maniqueísmos, Bogdanovich consegue enaltecer os ideais e o modo de vida alternativo de seus personagens, cobrindo de dignidade um movimento que hoje quase só vive na memória de seus integrantes. Também muito significativa é a seqüência onde Rocky vai a uma colônia de férias para cegos, lembrando a célebre cena do encontro entre a criatura de Frankenstein e o cego eremita.

Uma tarefa difícil, sem dúvida, realizar este filme sem deixá-lo cair no sentimentalismo barato e mantendo o choque e o estranhamento necessários para marcar o espectador. Marcas do Destino superou seus obstáculos de maneira competente, acrescentando novos elementos ao mito cinematográfico do freak.


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