burburinho

raio x

música por Maurício Alves

Desde que começou sua carreira solo, após a dissolução da Blitz, Fernanda Abreu se tornou uma divisora de águas na música brasileira. Embora não tenha primado exatamente pela originalidade, pois introduziu em seus arranjos instrumentos já populares no exterior, como o sampler e bateria eletrônica, aos ouvidos e cinturas menos acostumados ao efeito dos mesmos e da mistura do funk, disco music e samba, o resultado foi quase sacrílego. Ainda que sem se tornar uma blockbuster, conquistou aos poucos um público cativo e atenção da crítica. Mesmo assim, atingiu o grande público em seu cd Da Lata(1995), com músicas como Rio 40 Graus, Veneno da Lata e Garota Sangue Bom (homenagem à sua filha Sofia), que estouraram nas rádios de todo o país.

Em 1997, Fernanda lançou o cd Raio X, um apanhado não só de sua carreira, mas daquilo que sempre a influenciou, do samba dos morros cariocas ao funk dos anos setenta, sem esquecer a disco music e o rock. Convidou para o trabalho parceiros que sempre estiveram ao seu lado, como Herbert Vianna e Fausto Fawcett, e nomes com os quais foi criando afinidade ao longo do tempo, como Chico Science, Lenine, André Abujamra, Ivo Meirelles e muitos outros. O que poderia parecer relativamente fácil, dada a competência das pessoas envolvidas, se tornou um disco de referência não só na carreira de Fernanda Abreu, mas para a música brasileira, pois existem no cd alguns registros antológicos. Dois deles se tornaram verdadeiras raridades, pelos acontecimentos trágicos ocorridos com seus protagonistas: a parceria com Chico Science e Nação Zumbi em Rio 40 Graus e a gravação de Um Amor, um Lugar, composta por Herbert Vianna, que participa na voz em dueto com Fernanda e toca as guitarras.

A marca registrada de Raio X é a ousadia, o inusitado. Para quem já escutou tantas vezes Rio 40 Graus, por exemplo, a idéia de que a música - um marco na carreira da autora e intérprete - possa ser melhorada pode parecer, no mínimo, improvável. Pois Fernanda, Chico Science e Nação Zumbi transformam a faixa naquilo que pode ser definido como "porrada pura", tal o volume sonoro que se forma na fusão da excelente banda que acompanha a cantora com o mangue beat de Chico. O mesmo se dá em todo o cd, com destaque também para as faixas Bloco Rap Rio, na qual se juntam grande parte dos grupos e intérpretes do funk carioca (O Rappa, Planet Hemp, Ivo Meirelles, B.Negão, e outros), e outra marca registrada de Fernanda, É Hoje (Didi/Mestrinho), que ganha roupagem nova com o acompanhamento pesado do Funk'n Lata, superando a gravação original.

Fernanda participa, seja nas letras, seja no arranjo, da maioria das músicas, além de tocar em várias delas, da percussão aos samplers. Como se não bastasse, assina também a concepção e produção geral do cd. Não precisaria tanto para se concluir que estamos diante de uma artista diferenciada. Os nomes que fazem parte deste Raio X são um atestado da qualidade de seu trabalho.


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