burburinho

conversa com fernanda abreu

entrevista por Nemo Nox

Para ela não existem barreiras entre o nacional e o estrangeiro, entre o branco e o negro, entre o local e o universal. Sem medo e com muita ginga, Fernanda Abreu, funkeira-mor e neosambista, espalha sua energia dançável por onde passa.

Burburinho - Da vocalista da Blitz à funkeira de hoje existe uma enorme diferença musical. O que causou a transformação?
Fernanda Abreu - Na Blitz eu tinha outra função. Não era compositora. A partir do momento que decidi investir na minha carreira solo, comecei a compor. Acho importante o artista ter um trabalho autoral. Aí foi fácil, porque segui minha vocação para música brasileira dançante. Uma mistura de funk-rap-samba-bossa.

Burburinho - Sua temática é predominantemente carioca. Qual a reação ao seu trabalho em outros lugares do Brasil?
Fernanda - A minha temática é fundamentalmente brasileira. O Rio de Janeiro é o meu elo com o Brasil. Através do Rio consigo expressar minha condição de brasileira. Fui à procura da minha identidade musical e aí me deparei com conceitos como localidade, origem, vivência, etc.

Burburinho - Apesar de seu som ser fortemente influenciado por gêneros importados (funk, rap, etc.), você gravou uma das mais lindas versões do samba Aquarela Brasileira e até o sambão É Hoje. Como você administra essa dualidade musical?
Fernanda - Faz parte do que estávamos falando. Nessa procura de um som meu, autoral, com uma identidade brasileira, me deparei com o samba. O samba como essência da música e da cultura brasileira, e também como símbolo da cidade do Rio de Janeiro. Mas gosto de misturar, então o funk (que também tem seu lugar no Rio) entrou no caldeirão. A idéia é samba-funk geral num batuque digital.

Burburinho - Várias músicas gravadas por você recebem uma visita de outros temas (por exemplo, Garota de Ipanema em Kátia Flávia ou Voulez Vous em A Noite). Essas interferências são pré-planejadas ou acontecem espontaneamente na hora da gravação?
Fernanda - Gosto de expôr minhas influências. Acho que faz parte de nós, brasileiros, essas referências de fora. Então por que negá-las? Vamos nos "apropriar" delas. Respondendo mais diretamente à pergunta, elas aparecem na criação do arranjo, às vezes na pré-produção, às vezes já no estúdio.

Burburinho - Quais são os seus músicos preferidos e quem considera como influenciadores?
Fernanda - João Gilberto, Gil, Caetano, Melodia, Benjor, Tim Maia, Djavan, George Clinton, Sly Stone, Stevie Wonder, Marvin Gaye, Michael Jackson, Miles Davis, Hendrix, Black Rio, Paralamas, Soul 2 Soul, James Brown, Curtis Mayfield, e os atuais de Lenine, Pedro Luiz, Missy Eliot, Massive Attack, e os que ainda nem saíram, como Aricia Mess, Rodrigo Campello e Suely Mesquita.

Burburinho - Qual é o disco indispensável na sua coleção?
Fernanda - Thriller, de Michael Jackson.

Burburinho - Você é branca e trabalha basicamente com ritmos ditos negros. Música tem cor?
Fernanda - Não! E como diz Caetano Veloso: "Eu sou neguinha."


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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