burburinho

o aprendiz de feiticeiro

música por Nemo Nox

Muita gente não sabe, mas o velho poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe tem a sua parcela de culpa no episódio em que o rato Mickey viu-se atrapalhado com uma série de vassouras voluntariosas. Na verdade, tudo começou bem antes, em pleno século II, com um diálogo escrito por um tal de Luciano. Mas foi somente muitas centenas de anos depois, em 1779, que a história do aprendiz de feiticeiro se popularizou, graças a um poema de Goethe. E mais de um século depois, o compositor francês Paul Dukas inspirou-se nela para compôr sua obra-prima, o poema sinfônico O Aprendiz de Feiticeiro. Que acabou fazendo parte da trilha sonora de Fantasia, desenho animado em longa-metragem dos estúdios Disney, onde todos nós vimos Mickey interpretando o aprendiz atrapalhado.

Paul Dukas nasceu em Paris em outubro de 1865. Entrou para o conservatório aos dezoito anos e seis anos depois conquistou um segundo lugar no pretigiado Prix de Rome. Mas, apesar de ter composto obras respeitáveis como a abertura Polyeuchte e a Sinfonia em Dó Maior, não conheceria o sucesso junto ao público até 1897, quando seu scherzo sinfônico O Aprendiz de Feiticeiro foi imediatamente aclamado como um marco da música descritiva.

O Aprendiz de Feiticeiro conta a história de um incauto aluno das artes mágicas que, aproveitando a ausência do mestre, resolve aplicar um feitiço às escondidas. Faz com que uma vassoura crie pernas e braços, pegue um balde e vá buscar água no rio. Tudo corre bem até que o aprendiz percebe que não sabe as palavras mágicas para fazer com que a vassoura pare. A cada momento, mais água ela traz para casa. Tentando evitar uma inundação, o rapaz tem a infeliz idéia de destruir a vassoura com um machado, e parte-a ao meio. Agora as duas metades vão buscar água, duplicando a quantidade trazida. No último momento, o mestre reaparece e resolve a situação, que, bem ao gosto de Goethe, serve como lição moral para o aprendiz.

Dukas conseguiu ilustrar musicalmente a história com tal maestria que conseguimos imaginar perfeitamente todos os momentos da narrativa, a marcha obstinada da vassoura, o crescendo da água, a confusão do aprendiz, a machadada, o renascer das vassouras e, finalmente, a intervenção do mestre. E Dukas deu-se ao requinte de introduzir um elemento novo (e talvez a chave do sucesso), ausente no poema original de Goethe: o humor. Com o uso brilhante do pizzicato, do fagote e dos metais no tema da vassoura, ele coloca um sorriso irônico sobre a história que, muito mais que fábula moral, é uma bela anedota sobre um feitiço que vira contra o (aprendiz de) feiticeiro.


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