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montagem de atrações de eisenstein

teatro por Nemo Nox

Sergei Mikhailovitch Eisenstein (1898-1948) é universalmente reconhecido como uma das mais importantes figuras da história do cinema, tendo dirigido os clássicos O Encouraçado Potemkin (1925), Outubro (1928), Alexandre Nevski (1938) e Ivan o Terrível (1945). O que menos gente sabe é que Eisenstein foi também um influente encenador e teórico do teatro soviético.

Na Rússia dos anos vinte, a regra era fugir de qualquer manifestação artística que lembrasse os tempos do czarismo. Os teatros deixaram de exibir peças de inspiração romântica ou erudita, e urgia criar uma nova fórmula para os espetáculos, algo que servisse aos propósitos da revolução e fizesse sentido num cenário cultural onde o construtivismo agora reinava absoluto. Entra em campo Eisenstein, voluntário do Exército Vermelho e aluno de Vsevolod Meyerhold, mestre supremo do teatro soviético.

Com base em estudos sobre a teoria dos marionetes de Kleist, a ginástica expressiva de Bode, e o sistema fisionômico de Lavater, Eisenstein monta uma teoria priorizando a economia de gestos (poucos mas marcantes) e expressões (máscaras vivas): cada movimento do ator deve corresponder a uma necessidade específica da peça, todo o resto é supérfluo. Com a narrativa assim reduzida à sua essência, todos os momentos passam a ter suprema importância, provocando uma sucessão de estímulos muito fortes no espectador.

Em 1923, Eisenstein divulga oficialmente seu sistema ao publicar o manifesto Montagem de Atrações na revista LEF, dirigida por Maiakovski. "O próprio espectador passa a constituir o material básico do teatro; o teatro utilitário (agitação, propaganda, educação sanitária, etc.) sempre tem por meta orientar o espectador numa determinada direção (estado de espírito). Para tanto, os recursos disponíveis são todas as partes constitutivas do aparato teatral em toda sua variedade, reduzidas a uma unidade única - assim justificando suas presenças - por serem atrações."

O SábioCuriosamente, toda esta teoria ao serviço da arte utilitária desemboca na prática num espetáculo assustadoramente próximo ao burguesíssimo "teatro de variedades", fortemente influenciado pelo circo e pelo vaudeville. Em 1923, Eisenstein encenou O Sábio num palco transformado em ginásio de esportes, com palhaços e acrobatas fazendo todo tipo de piruetas para entreter o público, que não era capaz de entender o enredo político mas que se divertia da mesma forma. Antes de se dedicar em tempo integral ao cinema, Eisenstein ainda encenou mais duas peças, Escuta Moscou? (teoricamente sobre revoluções comunistas na Alemanha e na Hungria, mas novamente no esquema de montagem de atrações, mais circense que narrativa) e Máscaras de Gás (sobre um acidente numa fábrica e realmente encenada numa fábrica).

A montagem de atrações foi mais uma excentricidade teórica que uma verdadeira corrente teatral, mas teve uma influência importante no futuro trabalho cinematográfico de Eisenstein. Depurada e adaptada a um novo meio, acabou sendo fundamental na criação de toda a sua técnica de montagem, que opunha cenas diferentes (atrações) para criar impacto significante (estímulo).


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