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conversa com a.c. gomes de mattos

entrevista por Nemo Nox

Antonio Carlos Gomes de Mattos é professor de História do Cinema Americano na PUC do Rio de Janeiro, foi colaborador das revistas Guia de Filmes, Cinemin e Filme e Cultura, e publicou os livros John Huston - Ernest Lubitsch - Fred Zinnemann, Os Caminhos da Paz no Cinema e na TV, O Outro Lado da Noite e A Outra Face de Hollywood.

Burburinho - O filme B era originalmente caracterizado pelo baixo orçamento e por ser exibido como complemento à atração principal de uma sessão. O que decretou a morte dos filmes B, uma mudança na forma de produzir ou uma mudança na forma de exibir?
A.C. - Ambos os fatores. O fim da integração vertical, transformações econômicas e sócio-culturais e o advento da TV ocasionaram uma mudança na produção dos filmes. Os grandes estúdios se desinteressaram pela realização dos filmes B, preferindo os superespetáculos como um meio para enfrentar os tempos difíceis. Com isso, o preço dos aluguéis de filme aumentou e os exibidores só tiveram condições de apresentar apenas um filme por sessão. Houve certa continuidade do programa duplo nos drive-ins, para atender ao público adolescente mas, nos anos 70, com a predominância da produção independente, o filme B se extinguiu totalmente.

Burburinho - Hoje muita gente associa filme B a produções fracas, sem qualidade. Mas no passado faziam parte do gênero séries que hoje são cultuadas, como Charlie Chan ou Buck Rogers, e também diretores clássicos como Jacques Tourneur ou Anthony Mann. Por que mudou a percepção pública dos filmes B?
A.C. - Falta de cultura cinematográfica. A maioria do público não sabe o que é um filme B, não conhece as diversas formas que ele assumiu e as quatro categorias por ordem de prestígio que menciono no meu livro. Simplesmente confunde filme B com filme ruim. A pergunta que mais me fizeram por ocasião do lançamento do meu livro foi com relação ao filme trash.

Burburinho - O crítico Andrew Harris, citado na abertura do seu livro, diz que uma das formas mais interessantes de se apreciar o filme B é como um caçador de tesouros. Quais são os seus tesouros preferidos no gênero?
A.C. - Posso citar: Sangue de Pantera (Cat People), Vampiros de Almas (Invasion Of The Body Snatchers), A Dama de Preto (Park Row), Cidade do Vício (The Phenix City Story), entre outros.

Burburinho - Antes de A outra face de Hollywood: filme B, você escreveu O outro lado da noite: filme noir. Muitas vezes as duas categorias se cruzaram, com filmes noir produzidos como filmes B. Que títulos você destacaria?
A.C. - Mortalmente Perigosa (Gun Crazy), Moeda Falsa (T-Men), Mercado Humano (Border Incident), que são filmes noir impuros, segundo a minha classificação. Curva do Destino (Detour) é o melhor filme noir puro na categoria B.

Burburinho - Há quem defina o gênero noir pelo conteúdo (crimes, violência, erotismo velado, protagonista cínico, etc) e há quem o defina pela forma (fotografia em preto e branco, forte contraste entre claro e escuro, cenário urbano, etc). Qual a sua definição?
A.C. - O filme noir conjuga o conteúdo e a forma que você assinalou. O filme noir é um desvio ou evolução dentro do vasto campo do gênero drama criminal que teve seu apogeu durante os anos 40 até meados dos anos 50 e foi uma resposta às condições sociais, históricas e culturais reinantes na América durante a Segunda Guerra Mundial e no imediato pós-guerra. Nele se combinam basicamente as formas da ficção criminal americana produzida por Dashiell Hammett, Raymond Chandler, James M. Cain, Cornell Woolrich e seus descendentes ou semelhantes literários com um estilo visual inspirado nos filmes expressionistas alemães dos anos 20.

Burburinho - Ainda é possível fazer cinema noir (como Body Heat ou L.A. Confidential) ou você acredita que a época do gênero já passou?
A.C. - Sim, mas atualmente o que existe é o neo-noir. Refletindo uma nova realidade, esses filmes constituem um novo tipo de filme noir, que incorpora as convenções narrativas e estilísticas de seus progenitores, interpretando-as e projetando-as em um quadro cinematográfico contemporâneo.

Burburinho - Quais são seus filmes noir preferidos? Por quê?
A.C. - Destaco Até a Vista, Querida (Murder My Sweet) como o filme noir que expressa mais perfeitamente os personagens, temas, tom, atmosfera, estrutura narrativa e o estilo visual noir. Outros favoritos: Pacto de Sangue (Double Idemnity), Baixeza (Criss Cross), A Morte num Beijo (Kiss Me Deadly).

Burburinho - Depois dos filmes noir e dos filmes B, qual será o tema do seu próximo livro?
A.C. - Estou terminando um livro sobre o western e preparo uma História do Cinema Americano, adotando o método moderno, ou seja, abordando ao mesmo tempo os aspectos estético, tecnológico, econômico e social. Muita pretensão de minha parte, sem dúvida.


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