burburinho

canaletto

pintura por Nemo Nox

Imagine-se passeando pelos canais de Veneza em pleno século XVIII, deliciando-se com a arquitetura primorosa e o clima único da cidade. A grande diferença entre um turista daquela época e um dos nossos dias é que ainda não existiam máquinas fotográficas ou cartões postais para documentar o momento.

Felizmente, havia por lá um certo Giovanni Antonio Canal, mais conhecido como Canaletto, que pintava as paisagens da cidade com um realismo incrivelmente fotográfico, e até hoje podemos ver os "instantâneos" dos palácios e dos canais venezianos dos anos 1700. Filho de Bernardo Canal, um cenógrafo de certo renome, Giovanni nasceu em 1697 em Veneza, na Itália. Desde cedo o pai lhe transmitiu os princípios da perspectiva renascentista e os artifícios da construção de cenários para ópera. Juntos trabalharam para Vivaldi, e mais tarde, em Roma, para Scarlatti. Para não ser confundido com o pai, passou a ser chamado de Canaletto (pequeno Canal).

Os cenários garantiam um bom dinheiro, mas Canaletto queria que sua arte tomasse outros rumos e se tornasse autônoma, não somente um elemento numa ópera. Em 1720 voltava para Veneza para se dedicar à pintura de paisagens, deixando de lado os temas históricos e mitológicos dos cenários e passando a retratar a realidade da natureza e da arquitetura de sua cidade natal.

Canaletto não foi o primeiro a colocar na tela o esplendor de Veneza, mas foi ele quem elevou o tema a estrela da pintura, já que seus antecessores, como por exemplo Luca Carlevaris, mantinham a arquitetura como coadjuvante do tema principal. Para Canaletto, a precisão da perspectiva e a riqueza dos detalhes eram uma obsessão que transformava seus quadros em objetos únicos.

A obra de Canaletto fez grande sucesso na Inglaterra. Através de marchands ingleses residentes em Veneza, recebia e executava inúmeras encomendas. Logo teve que contratar assistentes para poder dar conta de tudo, e passou a trabalhar novamente com o pai e com o sobrinho Bernardo Bellotto.

A década de 1740 foi um período de guerras (a sucessão na Áustria, França contra Inglaterra) e o turismo e o comércio tiveram uma acentuada queda em toda a Europa. Canaletto acabou mudando-se para a Inglaterra para não perder seu mercado cativo. Pintou o Tâmisa em vários quadros, com a mesma precisão que retratava o Grande Canal de Veneza. Sua pintura, porém, já não era novidade, e com as encomendas minguando Canaletto voltou à sua cidade natal. Com as economias amealhadas até então, comprou uma propriedade em Zattere, onde viria a morrer em 1768, vítima de uma infecção na bexiga.

Ao contrário de tantos pintores de fora da cidade, que retrataram Veneza como algo extraordinariamante fora do comum, para Canaletto tudo aquilo era tão familiar que paradoxalmente lhe permitia um distanciamento impossível para os visitantes. Como escreveu Owen McSweeney, um de seus marchands, "a sua mestria reside em pintar de imediato aquilo que está diante de seus olhos".



pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.