burburinho

erik satie

música por Nemo Nox

Erik Satie nasceu em Honfleur, França, 1866. Órfão de mãe, com o pai em Paris, e aos cuidados do tio bon-vivant, o pequeno Erik já aos oito anos se mostrava fascinado pela música, freqüentando a igrejinha local e aprendendo os rudimentos com a organista que animava as missas.

desenho de SatieMais tarde seu pai o levou para a capital, e com quatorze anos Erik entrou para o Conservatório de Paris. Mas aparentemente aquele ambiente acadêmico impregnado de influências wagnerianas não fez bem ao rapaz, que nunca ultrapassou os resultados medíocres durante o curso.

Chegou mesmo a ser chamado de "aluno sem importância" e "inútil" nos relatórios dos professores. Numa carta escrita anos depois ao Conservatório, Satie vingava-se com palavras sarcásticas: "Minha alma era tão delicada que vocês não a entenderam. Apesar da minha juventude e delicadeza, vocês me fizeram detestar a rude arte que ensinam com tanta falta de inteligência; sua inflexibilidade inexplicável me fez odiá-los. Que Deus os perdoe e proteja as almas desafortunadas dos que ainda serão seus alunos."

Sem desanimar, o jovem Erik continuou no caminho musical, apesar de suas composições serem freqüentemente alvo de piadas da elite intelectual da época. Para garantir o seu sustento, trabalhou como pianista em cabarés e prostíbulos. Para satisfazer sua mente efervescente, compôs obras como Gymnopedies e Gnossiennes, peças consideradas excêntricas ou de mau gosto pela maior parte de seus contemporâneos.

desenho de SatieO nome Gymnopedies foi tirado de uma dança ritual em homenagem ao deus Apolo, executada por jovenzinhos desnudos na Grécia antiga (alguns teóricos afirmam que a nudez era somente simbólica, representando a ausência de armas entre os guerreiros espartanos). A peça para piano de 1888 é composta de três partes tranqüilas e quase hipnóticas. Debussy fez um arranjo para orquestra da primeira e da terceira, e Roland-Manuel fez o mesmo com a segunda.

Acredita-se que Gnossiennes, de 1891, tenha sido batizada em homenagem ao palácio de Knossos, em Creta, mas também existe a possibilidade de ser uma referência ao gnosticismo, já que Satie mais tarde se envolveria com o movimento rosacruciano. São seis partes, um pouco mais vigorosas que as Gymnopedies mas com o mesmo caráter enigmático e onírico.

Mas a música não era o único interesse de Satie (apesar de ser o principal): ele também escrevia e desenhava com o mesmo humor absurdo que colocava em suas composições. Na verdade, chegou a circular entre surrealistas e dadaístas, círculos em que foi apreciado ao mesmo tempo que era esnobado pelos acadêmicos musicais. Memórias de um Amnésico, seus escritos autobiográficos, chegaram a ser um sucesso em publicações avant-garde.

Quem inventou a música ambiental? Ray Conniff? Brian Eno? No século passado, Erik Satie já surpreendia o público parisiense com essa idéia. Numa apresentação que ele chamou de Música-Mobília, espalhou por vários cantos da sala um piano, três clarinetes e um trombone, que tocavam fragmentos musicais desconexos. O público, cercado por estes sons desconcertantes, ouvia em silêncio educado quando Satie surgiu dando instruções também para a platéia: "Falem! Mexam-se! Façam qualquer coisa, mas não escutem!" Era uma música para preencher o ambiente, assim como uma cadeira ou uma estante, mas não para ser o ponto principal da atenção. Na época, parecia um absurdo ou uma piada. Hoje, qualquer elevador ou supermercado que se preze toca uma música que preenche o ambiente mas passa, na maior parte do tempo, despercebida ao ouvinte.

desenho de SatieA arte de Satie pode ser vista como um conjunto coeso, seus textos espirituosos vazando poeticamente para os títulos de suas músicas (como por exemplo Três Passagens em Forma de Pera) e seus desenhos futuristas ecoando a arquitetura harmônica e melódica de suas composições. As notas à margem das partituras, com instruções para os intérpretes, também poderiam ter saído de uma peça dadaísta. Imagine a perplexidade de um pianista clássico ao ser confrontado com indicações como "sem piedade", "não seja orgulhoso" ou "equipe-se com visão límpida".

Grande parte do trabalho de Satie baseou-se em repetições de pequenas unidades, numa circularidade que preconizou a música minimalista e as composições fractais de hoje. Ele morreu praticamente desconhecido em 1925, mas hoje poucos duvidam do seu valor e da sua influência, que tocou de Debussy a John Cage. E seu desejo finalmente foi realizado: "Meu sonho é ver minha música em todos os lugares, não somente nas salas de concerto."


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