burburinho

conversa com leandro kemp

entrevista por Nemo Nox

A assinatura do Leandro Kemp começa a aparecer cada vez com mais freqüência na internet brasileira, de websites independentes a grandes portais. O Burburinho foi conversar com o cartunista por trás da assinatura.

Burburinho - Cartunista, ilustrador, webdesigner... Essa variedade de atividades é por vocação ou por necessidade? Dá pra viver só de cartuns no Brasil?
Kemp - Até certo ponto, acho que é por vocação mesmo. O desenho é a base de tudo. Até mesmo para ser um bom profissional na web, o sujeito tem que ter boas noções de harmonia (no sentido de saber intercalar texto com imagem e cor). Mas em alguns casos somos obrigados a pegar trabalhos que acabam nos desgastando. Eu vivo só de cartum desde sempre. Faço charges para um jornal diário desde 1995, mas tenho sempre que manter serviços paralelos. Afinal, a vida é dura.

Burburinho - Você passou de um público local (com a Tribuna de Petrópolis) para um público nacional (com o Jornal da Lilian). Em que isso influenciou o seu trabalho?
Kemp - O trabalho em si é o mesmo, o que mudou foi apenas o meio. No jornal impresso, a idéia tem que ser mais sintetizada e objetiva. No Jornal da Lilian entrava o processo de animação em flash, que permite o uso de som e técnicas específicas.

Burburinho - Qual o seu método de trabalho? De onde saem as idéias para os cartuns? Ter que produzir uma charge por dia cria alguma pressão criativa?
Kemp - A pressão existe. Mas com o tempo as idéias passam a surgir espontaneamente. Às vezes estou lendo um jornal ou assistindo TV com a mente relaxada e, de repente, pimba! Surge a charge pronta em minha cabeça. É algo realmente curioso, mas faz parte da rotina.

Burburinho - Você ainda desenha em papel e passa depois para o computador ou seu trabalho é completamente digital? Que software você usa para cada tarefa?
Kemp - Eu desenho sempre no papel. Desenhar diretamente no computador tira um pouco a personalidade do traço. Mas o colorido é feito no PC, pois poupa muito tempo e permite a correção, se algo der errado. Com o Photoshop eu consigo fazer praticamente tudo o que quero, mas também gosto de colorir no Flash e dou umas futucadas em tudo que vai surgindo. O experimentalismo é indispensável.

Burburinho - Quem são seus cartunistas preferidos? E quais você acha que influenciaram seu trabalho?
Kemp - Gosto de muitos caras: Moebius, Angeli, Robert Crumb, Peter Bagge, Adão Iturrusgarai, Ziraldo, Laerte, Allan Sieber, Gilbert Shelton. De certa forma, todos acabam influenciando um pouco. O desenho sempre vai evoluindo de acordo com a cultura visual do artista. Eu sempre costumo dizer para quem está começando que a observação acaba sendo mais eficaz do que um curso. O cinema também influencia bastante no meu modo de pensar e no meu trabalho em si. Filmes como Laranja Mecânica, Taxi Driver, O Iluminado, 2001, e outros, sempre nos dão aulas de roteiro, iluminação e direção. E isso vai para o papel. De uma forma tosca, claro.

Burburinho - Os cartunistas brasileiros sempre foram críticos em relação ao governo, independentemente de quem estivesse no poder. Com a eleição de Lula, porém, isso parece ter mudado muito, e grande parte das charges envolvendo o presidente são laudatórias. A que você atribui isso?
Kemp - Acho que isso se deve à cultura mesmo. A esquerda sempre assumiu esse lado revolucionário, que acaba seduzindo as pessoas. Mas, na verdade, eu acho que o barco é sempre o mesmo. A esquerda também dá seus tropeços e o chargista tem que ir atrás desses escorregões. A sorte é que nós, chargistas, não precisamos nos prender somente à política. Dá para fugir em outras direções.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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