burburinho

spawn

quadrinhos por Nemo Nox

A história é clássica, paradigmática, e poderia ter saído de um compêndio de mitologia grega ou de um romance gótico. Um homem morre e faz um pacto com o demônio para poder voltar ao mundo dos vivos e reencontrar sua amada.

E o capeta, é claro, dá um golpe no infeliz e não cumpre sua parte exatamente como esperado. É desta trama simples que parte Spawn, a série de quadrinhos mais celebrada dos últimos tempos, criação de Todd McFarlane. O protagonista da história é um ex-agente da CIA chamado Al Simmons. Ex-agente não por ter deixado o posto mas por ter sido morto em ação. O demônio que lhe oferece a volta à Terra é Malebólgia, que almeja ser o soberano dos infernos. Para isto, precisa de exércitos de diabinhos comandados por generais experientes. E para este cargo máximo da hierarquia militar infernal, sai recrutando humanos tarimbados na arte de matar. Ninguém melhor para isto que um tenente-coronel da CIA, ferramenta de tramas sangrentas para derrubar governos e influenciar mega-empresas.

Simmons, morto em combate depois de ter sido traído pelo próprio chefe, faz um pacto com Malebólgia para poder voltar ao mundo dos vivos e rever sua esposa Wanda Blake. Acontece que o rapaz, sem perceber a passagem do tempo (parece que a teoria de Einstein é válida no inferno: o tempo é relativo), retorna somente cinco anos depois de sua morte e completamente desfigurado (ele morreu queimado). Encontra Wanda casada com seu melhor amigo, Terry Fitzgerald, e mãe de uma adorável garotinha, Cyan. Nem é preciso dizer que ele não fica muito satisfeito.

Spawn, nome pelo qual é conhecido o novo Al Simmons morto-vivo, é um herói trágico, cheio de indagações. Tropeça pelo mundo tentando entender sua própria essência, seus novos poderes, seu papel na teia do universo, suas possíveis escolhas entre o bem e o mal. Ao mesmo tempo, vai desvendando seu passado esquecido e também as partes que antes desconhecia, as tramas de poder e assassinato da CIA, a relação com o trabalho e a família, e a sua postura religiosa.

Todd McFarlane povoou o universo de Spawn com um rico naipe de coadjuvantes, de demônios como o próprio Melebólgia ou o dúplice Palhaço/Violador a criaturas de inspiração angelical (ainda que isto tenha um significado todo especial e anticonvencional na série) como a caçadora Ângela ou o Redentor, um exterminador a serviço de Deus. Surgem ainda com destaque vários humanos, como os mendigos que dividem com Spawn seu novo lar, um beco, ou os policiais Sam e Twitch.

Mas afinal, o Spawn é um super-herói? Talvez seja, mas um novo tipo de super-herói, com poderes místicos em oposição aos poderes com explicação científica de super-heróis do passado (uma tendência forte dos anos noventa, com outros exemplos como Darkness, Witchblade, Preacher, e vários outros). Com uma capa vermelha com vida própria (que faz as alegrias de qualquer desenhista) e correntes no melhor estilo dark, Spawn descobre novos poderes a cada dia, da auto-regeneração à criação de objetos de plasma. Ele sabe, porém, que suas forças são finitas, e que cada vez que usa artifícios diabólicos fortalece de alguma forma a causa de Malebólgia.

Todd McFarlane transformou Spawn numa indústria. As primeiras revistas tinham texto e arte dele mesmo. Com o sucesso, novos roteiristas (Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, Grant Morrison) e desenhistas (Greg Capullo, Dwayne Turner) foram entrando no barco. Revistas com personagens secundários começaram a ser lançadas, uma série de desenhos animados para televisão, cards colecionáveis, um longa-metragem para cinema, e tantos tipos de bonecos que McFarlane é hoje dono de sua própria fábrica de brinquedos. Quem diria que milhares de criancinhas estariam hoje brincando com bonequinhos representando uma cria do inferno?


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