burburinho

el entierro del conde de orgaz

pintura por Nemo Nox

Toledo é uma cidadezinha encantadora, fruto de uma mistura cultural fascinante: por suas ruelas contorcidas correm influências tão díspares quanto hispânicas e romanas, árabes e judias, góticas e renascentistas, católicas e esotericamente místicas. A cada esquina pode haver um tesouro artístico a ser descoberto. Mas o mais importante e mais interessante de todos talvez seja um quadro de quatro metros e oitenta centímetros de altura por três metros e sessenta centímetros de largura abrigado na pequena Iglesia de São Tomé: trata-se do célebre El Entierro del Conde de Orgaz, obra-prima de El Greco.

El Greco nasceu em 1541 na ilha de Creta, com o nome de Domeniko Theotokopulus. Começou sua carreira pintando ícones para igrejas ortodoxas da Grécia, da Bulgária e da Rússia, mas sua inquietação estética logo levou-o à Itália, onde se praticava uma arte mais ao seu gosto. Depois de assimilar o estilo veneziano, mudou-se para a Espanha. Encantado por Toledo, ali viveu e trabalhou até a sua morte, em 1614.

Don Gonzalo Ruíz de Toledo tinha o título de Senhor de Orgaz (e não de Conde de Orgaz) e era uma figura pública da cidade. Entre suas muitas obras de caridade, transformou uma mesquita em igreja católica e ofereceu-a à paróquia de São Tomé, que também herdou parte significativa de sua fortuna. Como forma peculiar de agradecimento, criou-se o mito que Santo Agostinho e São Estêvão teriam aparecido em seu enterro. Para cristalizar esta história, em 1586 o pároco de São Tomé encomendou a El Greco um quadro ilustrando o episódio. Dois anos depois ficava pronta a magnífica obra El Entierro del Conde de Orgaz.

O quadro mostra claramente a influência na obra de El Greco do estilo veneziano (com destaque para a cor) em oposição ao estilo fiorentino (com destaque para o traço). Realmente, em El Entierro del Conde de Orgaz há ecos de Tintoretto, de Urbino e dos irmãos Bassano. Mas os tipos longilínios, oblongos, fantasmagóricos, são típica e inequivocamente criação única de El Greco.

Claramente dividido em duas partes, El Entierro del Conde de Orgaz é rico em simbolismos. A metade inferior mostra o enterro propriamente dito, com os dois santos carregando o Senhor de Orgaz enquanto são observados por uma comitiva de nobres enlutados. O uso do amarelo em contraposição ao negro faz com que os olhos do espectador dirijam-se diretamente para o trio principal. Curiosamente, não vemos os pés de nenhum dos presentes, numa possível indicação simbólica que estariam todos mais perto dos céus que da terra. Entre os notáveis da época, El Greco não se intimidou em retratar a si mesmo e a seu filho. Privilégios de artista.

A parte superior nos mostra o comitê de recepção que espera o Senhor de Orgaz nas esferas celestes, com Jesus Cristo no topo (fechando a pirâmide aberta na parte inferior), a Virgem Maria à esquerda e uma legião de santos à direita, com destaque para João Batista. Também aparecem personagens do Antigo Testamento, como Moisés, David e até mesmo Noé. Ligando as duas metades do quadro, temos a alma do Senhor de Orgaz, representada por um bebê espectral, sendo levada por um anjo. Mais uma vez, é um panejamento amarelo que guia visão do espectador para este ponto.

El Greco trabalhou com economia de cores, o que lhes dava maior impacto quando surgiam brilhantes em meio ao frio e escurecido ambiente. Para dar maior destaque a este efeito, usava indiscriminadamente várias fontes de luz, como que spotlights independentes cuja única função era iluminar um ponto específico do quadro. Junte-se a isto um tratamento solto da perspectiva (mas nunca da composição) e uma caracterização personalíssima da figura humana e temos o clima onírico que El Greco tão bem sabia imprimir em sua obra. E El Entierro del Conde de Orgaz ficou na história como prova viva de seu gênio artístico.



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