burburinho

mutação

cinema por Nemo Nox

Uma doença letal assola Manhattan, matando milhares de crianças. Para conter o apocalíptico vírus, a única forma encontrada é combater o animal transmissor, a barata, através de um inseto predador criado pela engenharia genética.

É gerada a Raça Judas, projetada para exterminar todas as baratas e desaparecer a seguir graças à sua própria esterilidade. Com este sucesso da ciência sobre a natureza, inicia-se Mutação (Mimic, EUA, 1997), do diretor mexicano Guillermo Del Toro. Mas a natureza em breve terá sua revanche. Como dizia Ian Malcolm, o cientista vivido por Jeff Goldblum em Parque dos Dinossauros, a vida sempre encontra seu caminho. Em Mutação, assim como no filme de Spielberg, encontra mesmo. E os cientistas que criaram o monstro, Susan Tyler (interpretada por Mira Sorvino, a mesma de Poderosa Afrodite) e Peter Mann (Jeremy Northam, de Emma), acabarão por ter que o encarar.

O tema do cientista que brinca de deus e tem que enfrentar as conseqüências, sempre desastrosas, já é um clássico. Ecos de Frankenstein sempre voltam às telas, de uma forma ou de outra. Nos anos cinqüenta, os monstros eram fruto do uso irresponsável da energia atômica, Godzila à frente de uma longa lista de anormalidades ameaçadoras. Hoje, a moda são os produtos da engenharia genética, como no citado Parque dos Dinossauros e neste Mutação. No fundo, trata-se de conservadorismo científico jogando com o medo coletivo do desconhecido.

A premissa científica, porém, serve somente de preparação para a segunda parte de Mutação, que na verdade é simplesmente mais uma história de monstros no estilo quem-será-o-próximo-a-morrer?. A vantagem aqui é que Del Toro faz isto com estilo e muita atenção aos detalhes. E a maior parte dos detalhes do filme paira entre o nojento e o asqueroso. Somos brindados com gosmas de todos os tipos, insetos babões, casulos sebosos, estalactites fecais, de forma a somar medo e repulsa em doses iguais.

A inspiração óbvia para os dois terços finais do filme é o já clássico Alien, de Ridley Scott. Em vez dos corredores da nave espacial temos os túneis do metrô de New York, em vez dos monstrengos alienígenas temos as baratas gigantes, mas a trama é a mesma: seres humanos perseguidos por criaturas insetóides em ambientes pouco iluminados. E Del Toro abusa da penumbra. Mesmo nas cenas passadas na superfície, quase sempre é noite, e até os dias parecem ser todos nublados. Chega ao extremo de mostrar uma cientista estudando um inseto num laboratório iluminado exclusivamente por uma lâmpada de mesa, todo o resto do ambiente no escuro. É a exploração de medos primitivos dos quais todos ainda temos ao menos uma lembrança, o medo do escuro, o medo de insetos, o medo do desconhecido.

Você colocaria a mão num buraco escuro e desconhecido, à procura de um objeto perdido? Claro que não. Mas é exatamente isto o que fazem dois personagens de Mutação. A cena incomoda, como incomodavam boas seqüências de suspense hitchcockiano. Nós sabemos que há algo lá à espreita, mas os personagens não sabem. Na verdade, durante a maior parte do filme, eles ignoram o que estão enfrentando, ou pelo menos a magnitude do perigo, o que dá alguma credibilidade a certas atitudes imbecis necessárias em filmes do gênero, como investigar um determinado ruído em vez de sair dali o mais rapidamente possível. Afinal, quem imaginaria baratas gigantes capazes de alçar vôo carregando um ser humano em suas patas?

O roteiro de Mutação passou por várias mãos, algumas delas com experiências interessantes a acrescentar. Contribuiu, por exemplo, John Sayles, responsável pelas histórias de Piranha e Alligator, o Jacaré Gigante, filmes onde o modelo animais-perigosos-versus-humanos-indefesos já aparecia. Também Steven Soderbergh, diretor de sexo, mentiras e videotape, deu a sua ajuda. Não esqueçamos que ele é autor de um filme sobre Kafka, o célebre criador de Gregor Samsa, personagem que se transformava em barata em A Metamorfose.

Dois nomes oscarizados enfeitam o elenco: Mira Sorvino, que interpreta a protagonista Susan Tyler, recebeu a sua estatueta de atriz coadjuvante em 1995 por Poderosa Afrodite, e F. Murray Abraham, que aparece como doutor Gates, seu mentor, foi premiado como melhor ator em 1984 por seu trabalho em Amadeus. Os outros atores, apesar de não terem o cobiçado prêmio hollywoodiano, não fazem feio. Jeremy Northam, de Emma e A Rede, é Peter Mann, o cientista companheiro de Susan. Charles Dutton, de Tempo Esgotado e Alien 3 (ele parece gostar deste tipo de filme), faz um policial do metrô de New York, responsável pelos pouquíssimos momentos de humor (negro, é claro) da história. O veterano Giancarlo Giannini, de filmes como O Inocente, de Visconti, e Lili Marleen, de Fassbinder, aparece como um engraxate, avó do menininho autista Chuy (interpretado por Alexander Goodwin).

É Chuy o responsável por alguns dos melhores momentos de suspense do filme. Tradicionalmente, Hollywood gosta de poupar as criancinhas nas matanças organizadas por maníacos assassinos ou monstros furiosos. Em Mutação, desde o início, não temos tanta certeza se a regra será seguida. Depois das milhares de crianças mortas pela epidemia do prólogo, e do destino dado a uma dupla de meninos caçadores de insetos, ficamos sempre na dúvida sobre a sorte de Chuy. É o ser humano, em seu estado mais inocente, contra a natureza, em seu estado mais aterrador. E a natureza, como sabemos, sempre encontra seu caminho.


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