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alien, a ressurreição

cinema por Nemo Nox

Numa indústria como a do cinema norte-americano, onde as continuações parecem ser sempre a aposta mais segura e os filmes com números a seguir ao título já se tornaram coisa corriqueira, nem mesmo a morte do protagonista dita o final de uma série.

No terceiro episódio da série Alien, a tenente Ellen Ripley morre após um espetacular mergulho num recipiente cheio de metal líquido. No quarto filme, Alien - A Ressurreição (Alien: Resurrection, EUA, 1997), ela ressurge das cinzas (na verdade, de uma seqüência de DNA retirada de uma amostra sangüínea), duzentos anos após a sua morte, na forma de um clone para mais uma vez combater os medonhos seres alienígenas. Curiosa e convenientemente, o clone retém a memória e a personalidade de Ripley.

(Esperemos que isto não tenha sido o início da moda de personagens clonados, ou em breve poderemos ter um Titanic II - O Retorno de Jack, com o corpo de Leonardo DiCaprio, muitos anos no futuro, sendo encontrado congelado no fundo do oceano e clonado, dando origem a um novo romance, desta vez com uma descendente da Rose do primeiro filme e a bordo de uma nave espacial chamada, é claro, Titanic, em rota de colisão com um asteróide gelado.)

O que falta em história em Alien - A Ressurreição é compensado por uma direção primorosa de Jean-Pierre Jeunet, o mesmo de Delicatessen e de A Cidade das Crianças Perdidas, e por muita simbologia e humor negro. A trama lembra muito um jogo no estilo Doom, com personagens humanos vagando por corredores de uma nave espacial, em busca de uma saída, e perseguidos por monstrengos assassinos.

Os efeitos especiais, como sempre, são um espetáculo à parte, e temos muitas variantes, desde aliens subaquáticos até híbridos de humanos com alienígenas. Se em episódios anteriores os monstros eram mantidos na sombra durante a maior parte do tempo, tendo direito somente a rápidas aparições até que chegasse o grand finale, em Alien - A Ressurreição acontece o inverso. Temos aqui um festival de criaturas gosmentas em todos os seus estágios de crescimento, com todas as secreções nojentas que lhes são peculiares.

Sigourney Weaver está tão sólida como sempre no já familiar papel de Ellen Ripley, agora em versão clonada e com trejeitos de alienígena. Winona Ryder, porém, com sua carinha de Topo Giggio assustado, parece um pouco perdida no filme. O resto do elenco felizmente foi bem escolhido, do peludo Dan Hedaya ao ator-fetiche do diretor, Dominique Pinon. Aparece até mesmo um humano que compete em feiúra com os monstros, Ron Perlman.

A simbologia cristã sugerida em Alien 3 (dirigido por David Fincher, que mais tarde buscaria o mesmo tipo de inspiração para fazer o thriller Seven) continua firme e forte em Alien - A Ressurreição. Se no episódio anterior tínhamos a colônia penal com detentos carecas que mais pareciam monges, presos a votos de castidade e seguidores de um culto apocalíptico, agora temos a tenente Ripley (ou seu clone) como metáfora óbvia de Jesus Cristo (já sugerida em seu mergulho de sacrifício em posição de cruz no final de Alien 3). Não bastando a sua morte para a salvação da humanidade, ela renasce para mais uma vez mostrar o caminho. As imagens simbólicas são várias, do invólucro estilo santo sudário do qual sai o clone até a pose de pietá que Ripley compõe com a rainha alien. Numa das passagens mais significativas, ela enterra uma faca na própria mão, reproduzindo metonimicamente o ritual da crucificação. Curiosamente, a cena espelha-se em outra semelhante de Blade Runner (Rutger Hauer fura a própria mão), filme do mesmo diretor do primeiro Alien, Ridley Scott. E se tudo isto se passa no espaço sideral, o final desta quarta parte da série traz a história para o planeta Terra, sugerindo um futuro quinto capítulo ambientado em território familiar, dando mais uma chance para Ripley ser a nossa salvadora.


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