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breathless

cinema por Nemo Nox

Podemos pegar um clássico do cinema europeu e transformá-lo em produto de massa norte-americano sem perder a essência do original? Breathless, de Jim McBride, prova que sim.

Lançado em 1983, Breathless (no Brasil, o filme teve a infelicidade de ser batizado como A Força do Amor, numa epidemia de falta de imaginação que no mesmo ano cunhou os títulos A Força do Destino e A Força do Carinho) é uma releitura de A Bout de Souffle (no Brasil, Acossado), filme de emblemático da nouvelle vague, dirigido em 1959 por Jean-Luc Godard, com roteiro de François Truffaut.

O filme francês conta a história de Michel (interpretado pelo jovenzinho Jean-Paul Belmondo), um ladrãozinho sem esperanças no futuro, e Patricia (Jean Seberg), uma estudante norte-americana vivendo em Paris. Breathless inverte as nacionalidades e passa a ação para os EUA, mostrando o ladrão de automóveis Jesse Lujack (Richard Gere, recém-saído de sucessos como American Gigolo e An Officer and a Gentleman) e a estudante francesa Monica Poicard (a sensual Valérie Kaprisky, de Aphrodite e Légitime Violence). Mas se a trama é a mesma, a de um desencantado em rota suicida com um efêmero elo com a realidade e a felicidade, o estilo é bem outro. A Bout de Souffle era um filme em preto e branco, lento, privilegiando a palavra em detrimento da ação, marcando o nascimento da nouvelle vague. Em comparação, Breathless, como indíca o título, é de tirar o fôlego. As cores, a movimentação da câmara, a edição das imagens, o comportamento dos personagens, tudo tem um ritmo ágil e vibrante. As dúvidas existenciais ainda são as mesmas, mas a forma de as expressar mudou muito.

Para compor a imagem de Jesse Lujack, McBride utilizou dois elementos com tamanha convicção, que acabou criando dois novos personagens. O primeiro deles é o rock. Se o Michel de Belmondo admirava a música de Mozart e com isto pretendia buscar uma resposta estética no passado, o Jesse de Gere parece ter encontrado seu som aqui mesmo. Do início ao fim do filme, ouvimos Pretenders, Dexys Midnight Runners, Elvis, e o fenomenal Jerry Lee Lewis, o maior pianista do rock'n'roll (foi de uma canção de Lewis que saiu o título Breathless). Mas a música não é somente trilha sonora, ela participa do enredo e influencia o comportamento de outros personagens. O segundo elemento são as histórias em quadrinhos do Surfista Prateado, criadas por Stan Lee e desenhadas por John Buscema. O Surfista é o próprio alter-ego de Jesse Lujack, que, numa das cenas do filme, pode ser visto sobre um trampolim de piscina como se fosse uma prancha espacial.

Com a estética do rock'n'roll e com a ética de um super-herói dos quadrinhos, Jesse Lujack desliza pelas ranhuras de um mundo quase alienígena em seus anseios e objetivos. Para ele, a marginalidade nem chega a ser uma opção: é puro instinto. Uma vida sem amanhã, um nihilismo visceral e, sem qualquer contradição, uma enorme alegria de viver. Que é, ao contrário do que acontece em A Bout de Souffle, exercida até o último fôlego.


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