burburinho

the praise singer

livros por Nemo Nox

Apesar da tradução absurda que o título teve no Brasil (a Editora Siciliano resolveu chamar o livro de O Cantor do Prazer, quando a tradução correta seria O Cantor de Elogios), The Praise Singer, de Mary Renault, merece a atenção do leitor interessado na Grécia clássica, em seus regentes e nos bardos que cantavam seus feitos.

Mary Renault nasceu em Londres, estudou em Oxford e foi enfermeira na Segunda Guerra Mundial, durante a qual seus primeiros livros foram publicados. Terminado o conflito, instalou-se na África do Sul, de onde passou a viajar freqüentemente para a Grécia, cenário da maior parte de suas reconstituições históricas. Entre seus títulos mais famosos estão The King Must Die, The Bull from the Sea, The Mask of Apollo, Fire from Heaven, The Persian Boy, e The Praise Singer.

The Praise Singer conta a história de Simônides, poeta heróico, lírico e ditirâmbico, que realmente viveu na Grécia clássica entre 556 e 468 AC, e que entrou para a história por ter escrito o epitáfio dos espartanos mortos nas Termópilas. Como pouquíssima informação histórica sobre Simônides chegou aos nossos tempos, Mary Renault recria ficionalmente sua trajetória, adicionando personagens inventados como um irmão e uma amante, entre outros. Mas todos os grandes da época comparecem na narrativa, já que Simônides circulou entre os poderosos gregos cantando seus feitos. Assim, somos apresentados a poetas como Anacreonte, autor de versos eróticos, ou Hiponax, autor de sátiras impiedosas, e políticos de peso como Pisístrato, regente de Atenas, ou Polícrates, tirano de Samos.

Graças às viagens do bardo Simônides, temos a oportunidade de testemunhar momentos importantes da vida grega antiga. Mary Renault narra eventos religiosos (a festa à Apolo em Delos), esportivos (as olimpíadas) e, principalmente, políticos (a sucessão de Pisístrato, o assassinato de Hiparco). Mas é no dia-a-dia que temos as partes mais interessantes, dos variados graus de amizade surgidos entre escravos e senhores, aprendizes e mestres, vassalos e soberanos, à vida (bi)sexual dos gregos. Curiosamente, Simônides é um dos poucos personagens masculinos de The Praise Singer a não apreciar a companhia íntima de rapazinhos (talvez numa tentativa de tornar o protagonista mais passível de identificação por parte do leitor médio?) e faz por vezes comentários interessantes sobre isto.

Simônides vive um período de transição em relação à sua profissão de poeta. Herdeiro da tradição oral, em que os poemas eram passados de mestre para discípulo numa interminável corrente, testemunha o surgimento da escrita como forma de documentar e arquivar a poesia. Num trecho significativo, participa num esforço coletivo de comparar as várias versões dos poemas de Homero que circulavam divulgadas por diversos poetas, algumas incompletas, outras com versos acrescentados porteriormente.

É clara a identificação e simpatia de Mary Renault com seu personagem, de escriba para escriba. E é este talvez o aspecto mais importante de The Praise Singer, não somente uma ficcionalização de um período histórico mas também uma reflexão sobre o ofício de contar histórias.


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