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ishmael

livros por Nemo Nox

Algumas vezes a adaptação de um livro para as telas é fiel, como na série Harry Potter. Outras vezes, o material escrito serve somente de ponto de partida, gerando um filme quase irreconhecível para os leitores. É o caso de Ishmael, livro de Daniel Quinn que deu origem ao filme Instinct.

O roteirista Gerald DiPego pode ser considerado um veterano. Já assinou mais de vinte longas-metragens, entre eles Message in a Bottle (com Kevin Costner). Já adaptou livros para o cinema, como Sharkey's Machine, de William Diehl, ou o seu próprio Keeper of the City. Foi, portanto, uma escolha natural para a missão de transformar em filme o livro Ishmael, de Daniel Quinn. Com liberdade para criar, Gerald usou os princípios teóricos contidos no original e escreveu uma história completamente diferente e com personagens novos. Para quem não leu o livro, fica a pergunta: afinal, de que se trata?

Tudo começa com o narrador de Ishmael respondendo a um anúncio de jornal: "Professor procura discípulo. Deve ter um desejo sincero de salvar o mundo. Candidatar-se pessoalmente." Para sua surpresa, o professor é um gorila enorme, capaz de administrar suas lições por telepatia. Não, nada de paranormalidades ou ficções-científicas. Ishmael é simplesmente uma grande aula, numa versão contemporânea dos diálogos platônicos, e esta introdução serve para armar o cenário e preparar o leitor para as lições que virão a seguir. Como o próprio gorila Ishmael diz, "seria melhor que se sentasse e ficasse tranqüilo, porque se ficar tranqüilo será mais capaz de ouvir".

Mas por que um gorila? A idéia é que qualquer um tem dificuldade de compreender a própria história, e uma visão externa pode ser uma ajuda inestimável. Se um indivíduo busca isto noutro indivíduo, e um povo recorre aos povos estrangeiros, para a espécie humana seria preciso obter o mesmo tipo de auxílio de outra espécie animal.

O filme Instinto deixa de lado o aspecto de fábula e seus gorilas telepatas, e constrói uma história realista em torno de seres humanos em situações verossímeis, com pitadas de dramas de tribunal e de Um Estranho no Ninho. E faz um belo trabalho, entretendo e ao mesmo tempo transmitindo um pouco do que Daniel Quinn queria originalmente transmitir. Mas, já dizia McLuhan, o meio é a mensagem, e um livro permite coisas que as telas dos cinemas nunca permitirão.

O gorila Ishmael não é um professor comum. Em vez de simplesmente passar o seu recado, exige que o aluno raciocine por conta própria. As verdades não devem ser absorvidas, mas descobertas. O aprendizado não é fácil, mas cada novo conceito surge como uma iluminação. A pergunta principal é "governar o mundo é o destino do homem?" e para responder a isto Ishmael repassa com seu aluno toda a história da humanidade, abordando assuntos conhecidos por um ângulo novo.

O milionário Ted Turner criou um prêmio para autores buscando soluções criativas e positivas para problemas globais. Em 1991, Daniel Quinn recebeu este Turner Tomorrow Fellowship com Ishmael, um livro no qual vinha trabalhando há mais de dez anos. Publicado no ano seguinte pela Bantam Books (no Brasil saiu pela Editora Best Seller como Ismael), foi um sucesso que lançou Quinn numa nova carreira literária. Depois disto, ele já publicou vários títulos, entre eles Providence (uma autobiografia), The Story Of B (novela filosófica na mesma linha de Ishmael), a inevitável continuação My Ishmael (agora com uma menina de doze anos como protagonista) e Beyond Civilization, todos explorando os mesmos temas mas sem o mesmo impacto original de Ishmael.


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