burburinho

the ring

cinema por Nemo Nox

Quando um filme se anuncia como "o mais assustador de todos os tempos", é natural achar que se trata somente de mais um exagero publicitário. Mas ao sair de uma sessão de The Ring (EUA, 2002), é bem possível que você concorde que foi realmente a experiência cinematográfica mais arrepiante da sua vida.

A história veio do Japão, já foi livro de Koji Suzuki e filme de Hideo Nakata, sucesso com direito a sequel e prequel, e agora tem sua versão ocidental. O enredo é surpreendentemente simples, mais uma trama envolvendo mortes anunciadas. A vítima assiste uma cassete de vídeo, aparentemente um filme experimental sem muito sentido, e em seguida recebe um telefonema. Do outro lado da linha, uma voz infantil sussurra duas palavras: "sete dias". E uma semana depois a pessoa morre em circustâncias terríveis, com uma expressão de pavor estampada no rosto. Uma jornalista (Naomi Watts, de Mulholland Drive) resolve pesquisar o caso depois da morte misteriosa da sua sobrinha. Como ela também assistiu a fita, a investigação se transforma numa corrida contra o tempo, sete dias até o "decifra-me ou devoro-te".

O que poderia ser apenas mais um thriller descartável, com adolescentes morrendo em série, desabrocha nas mãos do diretor Gore Verbinski (com um currículo que pouco combina com o gênero de horror: a comédia infantil Mouse Hunt e a aventura romântica The Mexican) e do roteirista Ehren Kruger (este, sim, com experiência em thrillers, como Arlington Road e Scream 3). As revelações são passadas ao espectador em doses minúsculas, e navegamos lentamente por águas turvas que não nos deixam ver se no fundo temos uma lenda urbana, um assassino engenhoso ou realmente algo sobrenatural. The Ring, porém, não se esconde atrás da clássica idéia que o sugerido assusta mais que o mostrado. O filme mostra sem pudores a causa do terror tão extremo que chega a desfigurar as vítimas. Mas só mostra quando o espectador não espera. Os rostos deformados não aparecem na hora do susto, somente depois, em flash back, e acabam assustando ainda mais. A ameaça escondida na cassete de vídeo parece já ser coisa do passado quando finalmente a vemos em ação. E a promessa é cumprida: as imagens são realmente arrepiantes, não tanto pelo que contêm mas pela forma como são preparadas e apresentadas.

O tal filme sem nome que as vítimas assistem uma semana antes de morrer é uma bela peça tardia de surrealismo, lembrando ao mesmo tempo o inesperado de Un Chien Andalou, clássico de 1929 saído da imaginação de Luis Buñuel e Salvador Dalí, e o inusitado de David Lynch, de Twin Peaks ou Mulholland Drive. O próprio material do filme serve como elemento ativo na trama de The Ring, desde a opção pelo monocromatismo e pela precariedade técnica (que no final terão um papel visual importante) até uma mosca apanhada aparentemente por acaso na lente (ou na própria tela? ou na imaginação do espectador?). E as referências cinéfilas não ficam somente no surrealismo. Alfred Hitchcock, por exemplo, é homenageado em várias cenas de The Ring, algumas saídas diretamente de Psycho (o plano fechado no ralo da banheira ou a cadeira girando para revelar um cadáver) e de Rear Window (Naomi Watts apreciando as atividades dos vizinhos, janela por janela).

Completando o clima de estranheza de The Ring, temos o menininho esquisito David Dorfman, presença infantil herdeira de Martin Stephens (de The Innocents) e Danny Lloyd (de The Shining). Em meio à música arrepiante de Hans Zimmer e aos elaborados efeitos especiais, é dele a frase mais arrepiante do filme, que vira do avesso o que nos tinham levado a acreditar e leva a trama para seu clímax. Um clímax difícil de imaginar num filme que começa despretenciosamente com duas adolescentes conversando: "Você já ouviu a história dessa cassete estranha que mata quem assiste? Parece o pesadelo de alguém, mas depois que você assiste o telefone toca. Você atende e a voz do outro lado diz que você vai morrer em sete dias."


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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