burburinho

boogie nights

cinema por Nemo Nox

Quem diria? Um filme sobre o cinema pornográfico, recheado de drogas, palavrões e cenas de nudez (incluindo uma exposição frontal do avantajado órgão do protagonista), tornou-se sucesso de público (quebrando recordes de espectadores por sala na sua semana de estréia) e de crítica (três indicações ao Oscar e uma coleção de outros prêmios para os intérpretes). Este é Boogie Nights (EUA, 1997), de Paul Thomas Anderson.

Na superfície, Boogie Nights parece ser somente um filme sobre cinema pornográfico e sobre drogas. Este sucesso inesperado, porém, abriga muito mais que isto. Um de seus temas principais (e o filme é rico em temas, infelizmente não aproveitando inteiramente o potencial de todos) é o da família. Não a família tradicional, ameaçada pelo perigo insidioso dos filmes de sexo explícito, mas uma família alternativa, reconstruída, reinventada, reencontrada nos lugares mais insólitos. Eddie (Mark Wahlberg, de Three Kings e Planet of the Apes), o protagonista, encontra uma figura paterna em Jack (Burt Reynolds, de Amargo Pesadelo e Striptease), o diretor de produções pornô (e não são todos os diretores de cinema uma espécie de pai-patrão de seu elenco?), e em sua namorada e atriz pornô Amber Waves (Julianne Moore, de Nine Months e Hannibal) uma nova mãe. Este casal radicalmente anticonvencional tem uma estrutura familiar (por vezes deliciosamente incestuosa) gravitando ao seu redor, composta de irmãzinhas (Rollergirl, interpretada pela interessante Heather Graham, de Perdidos no Espaço), irmãos (Reed Rothchild, vivido por John Reilly, de O Rio Selvagem), primos mais ou menos afastados (Maurice Rodriguez e Little Bill, respectivamente Luis Guzman de O Substituto e William Macy de Fargo) e até mesmo de velhos tios endinheirados (o Coronel, Robert Ridgely de O Teatro da Vida). Esta composição familiar alternativa parece amalgamar-se naturalmente, como se a família fosse a forma mais natural de unidade social. Quando algum de seus elementos prefere rebelar-se contra o grupo e partir para o individualismo, o resultado é quase sempre desastroso. Neste sentido, por incrível que possa parecer, Boogie Nights é, talvez inadvertidamente, um filme conservador.

Outro tema importante é o da insatisfação consigo mesmo, ainda que não assumida, fazendo com que quase todos os personagens tenham um desejo íntimo de ser outra pessoa. Reed, ator pornô, saltita entre o sonho de ser um mágico de palco e o de ser um compositor pop. Rodriguez, dono de boate, quer ficar para a posteridade como um latin lover do sexo explícito. Buck Swope, também ator pornô, sonha em ter sua própria loja de aparelhos de som. E assim por diante. O próprio Jack, patriarca deste cardume de peixinhos eróticos, tem a pretensão de ser algo mais que um simples diretor de filmes baratos de sexo. Seu sonho é fazer, da pornografia, arte, e realizar aquele filme capaz de manter o espectador na poltrona mesmo após oferecer o prometido orgasmo.

Não só em seu conteúdo Boogie Nights é rico em interpretações, o mesmo acontece em termos formais. Apesar de pouco rigoroso na edição (o filme poderia ter, com facilidade, menos vinte ou trinta minutos), o diretor Paul Thomas Anderson, neste seu segundo trabalho (o primeiro foi o algo noir Hard Eight), mostrou saber emular, com toques pessoais, alguns de seus inegáveis ídolos. Há ecos de Altman no mosaico de personagens que se cruzam e entrecruzam por toda a história, mas as influências mais fortes são evidentemente de Scorsese e Tarantino. Do diretor de Os Bons Companheiros, Anderson foi buscar a câmara em contínua perseguição aos protagonistas e coadjuvantes, num virtuosismo formal que nem sempre contribui para a narrativa. Do enfant terrible de Pulp Fiction, a influência aparece nas esperadas cenas de violência inesperada, com sangue jorrando e pedaços de cérebro voando. Abrindo caminho para os elogiadíssimos Magnolia (1999) e Punch-Drunk Love (2002), em Boogie Nights Anderson por vezes exagera e acaba sendo mais scorsesiano que Scorsese e mais tarantinesco que Tarantino. Mas deixa já a marca de um diretor competente que sabe fazer, no mínimo, um filme vigoroso e instigante.


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