burburinho

um romance muito perigoso

cinema por Nemo Nox

Um tema assíduo nas telas de cinema é o do homem comum que, graças a um inesperado acaso, se vê repentinamente envolvido com as mais intrincadas tramas, não raro tendo a sua própria vida em jogo.

Alfred Hitchcock fez filmes brilhantes sobre isto (O Homem Errado, Intriga Internacional, O Homem Que Sabia Demais, entre outros). Martin Scorsese levou o assunto a extremos kafkianos no seu criativo After Hours. Outro bom exemplar, poucas vezes lembrado, é Um Romance Muito Perigoso (Into the Night) de John Landis, produção norte-americana de 1985.

John Landis já era bem conhecido por filmes como Um Lobisomem Americano em Londres e Trocando as Bolas, ou mesmo pelo videoclip Thriller, com Michael Jackson. Em Um Romance Muito Perigoso ele narra, com seu peculiar bom humor, uma movimentada história policial. Ed (interpretado por Jeff Goldblum, de A Mosca e Jurassic Park) é o típico norte-americano em crise. O emprego é chato, a esposa o trai, a insônia não o abandona. Numa de suas longas noites sem sono, resolve ir até o aeroporto, onde, graças ao acaso (ou seria destino?), acaba se envolvendo com Diana (interpretada por Michelle Pfeiffer, de O Feitiço de Aquila e As Bruxas de Eastwick), perseguida por quatro assassinos da Savak, polícia secreta do ex-Xá do Irã. A situação vai se complicando rapidamente, com vários grupos disputando a posse de cobiçadíssimas jóias da cora iraniana contrabandeadas para os EUA. E Ed, até então um pacato e infeliz engenheiro, passa por aventuras que, se contadas a seus colegas de escritório, seriam consideradas mentiras deslavadas.

Além da presença marcante e competente de Goldblum e Pfeiffer, o elenco de Um Romance Muito Perigoso nos brinda ainda com uma série de divertidas curiosidades. O próprio John Landis interpreta um dos quatro assassinos da Savak, que apesar de grandes trapalhões são extremamente violentos. Outros cineastas aparecem também em papéis menores: Paul Mazursky é um diretor de séries de TV envolvido com drogas, Roger Vadin é um bandido francês que também quer as jóias, David Cronenberg é o supervisor do grupo de trabalho de Ed, Jonathan Demme é um agente federal. Outros nomes conhecidos em pequenos papéis são Irene Papas como a líder da Savak, David Bowie como um assassino inglês, Dan Aykroyd como um colega de Ed, e Vera Miles como uma velha megera.

Mas Um Romance Muito Perigoso oferece ao espectador atento muito mais que uma trama policial bem armada, uma série de tiradas engraçadas e um time de astros especialmente convidados. Claro que os apreciadores das comédias policiais não se decepcionarão, mas isto não é tudo.

Ed é um homem em conflito. Já descobriu que não lhe bastam a rotina acachapante, o emprego seguro, a vida familiar tradicional, a segurança material. Logo no início do filme, na inteligente cena do engarrafamento, confidencia ao seu colega de trabalho que se sente como um extraterrestre, um estranho à vida que o cerca. Isto quase o transforma num zumbi insone, pois se já sabe o que não lhe basta, ainda não descobriu o que lhe falta. É por este motivo que, embaladas pela bela canção Into the Night, de B.B. King, as idas e vindas de Ed pela noite de Los Angeles representam algo além da simples aventura: é como se fosse uma iluminação. Ao lado da encantadora Diana ele descobre um novo mundo, de perigos e mistérios, de ousadia e audácia. Se o questionamento final frente ao fanático assassino iraniano com um refém é tão doloroso quanto real, o absurdo do momento cria um clima mágico que funciona como rito de passagem. A partir deste instante, sua vida está transformada e seu sono recuperado.

Neste sentido, Um Romance Muito Perigoso é não só um bom entretenimento mas também um alerta. Como escreveu Bernard Tapie, "a audácia, no fundo, é nada mais que a manifestação metafísica, ruidosa e absolutamente lúdica da liberdade".


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