oferenda musical
ohann Sebastian Bach (1685-1750) fez muita música e muitos filhos. Um destes últimos, Karl Philipp Emanuel Bach (1714-1788), também compositor, chegou a ser músico da corte de Frederico II (1712-1786), rei da Prússia, grande mecenas do século XVIII.
Frederico não só patrocinava artistas e pensadores de diversas áreas como também escrevia ensaios, tocava flauta e eventualmente compunha. Grande apreciador da música do velho Bach, muitas vezes havia comentado com Carl Philipp como gostaria que seu pai fizesse uma visita à corte. Em 1747, seu desejo tornou-se realidade e Johann Sebastian foi a Postdam, onde experimentou os diversos pianos do rei (na época, os pianos começavam a tornar-se populares e a substituir os cravos) e improvisou sobre vários temas, inclusive sobre um criado pelo próprio Frederico.
Depois de voltar para casa, em Leipzig, o velho Bach resolveu retrabalhar os improvisos sobre o tema de Frederico. O resultado (dez canons, uma fuga a três vozes, uma fuga a seis vozes, e uma sonata), enviado como presente ao rei, levou o título de Musikalisches Opfer (Oferenda Musical) e entrou para a história como um exemplo notável da criatividade de Johann Sebastian.
Um canon é uma melodia tocada por mais de um instrumento (chamados vozes), entrando sucessivamente um após o outro e sobrepondo-se formando um tecido harmônico. Um exemplo é o popular Frère Jacques. Evidentemente, tratando-se de Bach, estamos falando de algo bem mais elaborado que a simples repetição alternada de um mesmo tema. Nos canons da Musikalisches Opfer, todos os tipos de variações aparecem: vozes em outros tons, vozes em velocidades diferentes, vozes invertidas, vozes espelhadas.
Como o canon, uma fuga é uma forma de contraponto (combinação de vozes simultâneas, cada uma com significado próprio e o todo resultando numa textura coerente), porém com muito mais liberdade criativa e espaço para variações menos rígidas em relação ao tema principal. Combinar duas ou três vozes de forma a fazerem sentido tanto como melodia individual como em harmonia com as outras, e ainda formarem um conjunto agradável e interessante para o ouvinte, não é tarefa fácil. Fazer o mesmo com quatro ou cinco vozes exige grande habilidade. O Wohltemperierte Klavier (Cravo Bem-Temperado), conjunto de 48 prelúdios e fugas de Johann Sebastian Bach, por exemplo, traz somente duas fugas a cinco vozes. Mas em Musikalisches Opfer o velho Bach ultrapassa a si mesmo e, apesar do tema não exatamente simples do rei Frederico, apresenta uma complicada, elegante e deliciosa fuga a seis vozes.
A peça mais curiosa do conjunto, porém, talvez seja o Canon per Tonos, a três vozes: a melodia sobe um tom cada vez que é executada, simbolizando, segundo o próprio autor, a glória ascendente de Frederico. O canon começa em Dó menor, chegando ao início da segunda parte em Ré menor, e assim sucessivamente, até que, depois de seis repetições, estamos de volta ao Dó menor, agora uma oitava acima. Uma circularidade bem ao gosto dos jogos musicais do velho Bach.

