burburinho

estranhos vizinhos

cinema por Nemo Nox

Alguns bons diretores de cinema possuem filmes ditos "menores" que são pequenas maravilhas. É o caso, por exemplo, de Hitchcock e seu O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1956) ou Buñuel e seu Simão do Deserto (Simón del Desierto, 1965). Um cineasta mais recente, John G. Avildsen, responsável pelo sucesso de Rocky (o primeiro, de 1976) e Karate Kid (1984), também tem seu "filminho", uma pérola de humor corrosivo e crítica social: Estranhos Vizinhos (Neighbors, EUA, 1981).

A dupla John Belushi e Dan Aykroyd já havia feito muito sucesso na televisão entre 1975 e 1979, com o programa Saturday Night Live, e no cinema em 1980, com Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers), dirigido por John Landis. Estranhos Vizinhos, porém, trazia um tipo de humor bem diferente, menos fácil de digerir que as piadas populares de The Blues Brothers e com situações à beira do nonsense que, ao contrário dos sketches rápidos de Saturday Night Live, se encaixavam perfeitamente numa narrativa mais longa e elaborada. A história foi baseada num livro de Thomas Berger, o mesmo autor de Little Big Man (que também já tinha sido passado para as telas, O Pequeno Grande Homem, de Arthur Penn).

Earl Keese (Belushi) vive numa típica casa de subúrbio norte-americano com sua esposa Enid (Kathryn Walker). Ambos parecem entediados e infelizes. Até que surgem o espalhafatoso Vic (Aykroyd) e a sensual Ramona (Cathy Moriarty), que se mudam para a casa ao lado com seu cãozinho, seu avião de brinquedo e, acima de tudo, seu comportamento inesperado e imprevisível. Sem qualquer preocupação com convenções sociais, o casal vai se infiltrando sem qualquer cerimônia na vida dos Keese logo nos primeiros minutos. Vic parece ser o estereótipo do aproveitador barato, levando vantagem em cima da boa vontade do vizinho e aplicando pequenos golpes. Ramona parece ser o estereótipo da sedutora sem escrúpulos, enlouquecendo um Earl que parecia adormecido na mesmice do casamento sem excitação. Mas serão Vic e Ramona realmente o que parecem?

O que faz a história de Estranhos Vizinhos tão interessante, mais do que os múltiplos percalços e mal-entendidos a que o pobre Earl Keese se sujeita, é a forma com que o conflito evolui para questionamento. Em vez de simplesmente adotar os novos vizinhos como inimigos, Earl vê neles lampejos de uma liberdade que também gostaria de ter. O humor é sutil mas contundente, um dedo impiedoso nas feridas da classe média, pondo em dúvida vários conceitos tidos como definitivos nos subúrbios dos EUA. E a conclusão, inescapável do ponto de vista do personagem, não deixa dúvidas quanto ao caráter subversivo do filme. Que, infelizmente, mas talvez inevitavelmente, foi um fracasso nas bilheterias.

Curiosamente, John Belushi foi inicialmente contratado para interpretar Vic, e Dan Aykroyd seria Earl. Pouco antes de começarem as filmagens, os dois resolveram trocar de papel. O que talvez mostre, mais do que a versatilidade dos atores ou a adequação aos personagens, que há uma fronteira tênue entre um conformado Earl e um anárquico Vic.


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