burburinho

edward scissorhands

cinema por Nemo Nox

Imagine um cruzamento entre o vagabundo de Charles Chaplin e a criatura de Frankenstein. O resultado não estaria muito longe do protagonista de Edward Scissorhands, filme de 1990 dirigido por Tim Burton.

O personagem do título, brilhantemente interpretado por Johnny Depp (ator preferido de Burton, quase um alterego nas telas), é um interessante híbrido de vários clássicos do cinema. Construído num castelo digno dos filmes de terror da década de trinta, por um cientista da mesma linhagem do dr. Frankenstein (não por acaso vivido por Vincent Price, um ícone do gênero), o pobre Edward tem tesouras em vez de mãos, já que seu criador morreu antes de completar o trabalho. E se toda ação dramática nasce de um conflito, em Edward Scissorhands o grande conflito é de culturas, com o rapaz das mãos de tesoura adentrando um mundo de casinhas coloridas e alegria suburbana, estereótipo do american way of life, com subterrâneos de intriga e joguinhos de poder.

Burton já havia abordado este tipo de contraste em Beetlejuice (EUA, 1988), onde colocava em oposição um ingênuo mundo de fantasmas com um materialista universo yuppie. Em Edward Scissorhands, apesar do tom de fábula, o tema é aprofundado. Edward simboliza tudo que não é aceito simplesmente por ser diferente, da deformação ao gênio criativo. Além disto, vive permanentemente o drama de querer tocar e não poder, condenado à distância por sua própria natureza. A inocência do personagem cativa, e vê-la sucumbir perante o inevitável é o que dá o tom agridoce ao filme, que consegue manter uma respeitosa distância tanto do final feliz como da tragédia.

Edward tem as mesmas origens da criatura de Frankenstein, monstro construído pelo homem, fruto ao mesmo tempo do orgulho (sonhos de onipotência divina do criador) e da utopia (ilusões de um homem melhor, fabricado para ser perfeito) de um cientista. Ao mesmo tempo, possui a inocência infantil que lhe dá uma expressão facial e um comportamento quase chapliniano, dos olhares desamparados aos passinhos curtos e cômicos.

Se comparado com os filmes que Tim Burton dirigiu imediatamente antes e depois (Batman e Batman Returns), Edward Scissorhands pode ser considerado uma produção modesta. Além de Depp e Price (que aparece por poucos minutos), o elenco conta também com Winona Ryder e Dianne Wiest. A direção de arte de Tom Duffield (que já havia trabalhado com Burton em Beetlejuice e mais tarde faria Men in Black) e a música de Danny Elfman (que compôs a trilha de quase todos os filmes de Burton) dão o envolvimento necessário para a criação de um universo burtoniano onde tudo pode acontecer, inclusive momentos de poesia surgindo em meio a uma sátira social.


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