burburinho

conversa com roger rocha moreira

entrevista por Nemo Nox

Guitarrista, vocalista e compositor de quase todas as canções do Ultraje a Rigor, Roger Rocha Moreira é o principal responsável pelo bom humor e pela irreverência da banda, desde o disco de estréia em 1983, com o sucesso instantâneo Inútil de um lado e Mim Quer Tocar do outro, até o recente cd Os Invisíveis.

foto de Marcos HermesBurburinho - Em Nada a Declarar vocês cantavam "eu quero me esbaldar, quero lavar a alma". Isso resumiria o espírito do Ultraje a Rigor?
Roger - Yessir! Muita gente julga meu sucesso por ângulos totalmente equivocados, tipo quantos discos eu vendi, se consegui superar o Nós Vamos Invadir Sua Praia, etc, quando eu não estou nem tentando! Meu projeto era trabalhar me divertindo ou, melhor ainda, me divertir trabalhando, poder ter mais domínio de minhas horas de trabalho. E eu ultrapassei minhas expectativas em muito. É claro que meu caráter e minha personalidade, e a própria característica do meu trabalho, não permitem que eu faça porcarias, ou minha carreira não estaria durando tanto. É o velho "there's no such thing as a free meal", dá trabalho, mas é confortável e divertido, e eu tenho bastante controle de minha vida.

Burburinho - Qual o gostinho de lançar um cd só com músicas inéditas depois de tanto tempo?
Roger - É uma satisfação quando sai, uma sensação de dever cumprido, e um orgulho de ver que ficou legal, de realização. É um parto, principalmente porque minhas músicas dizem muito sobre mim, e eu sou meio tímido e reservado, até meio anti-social, e eu sei que vou ser julgado. Mas quando sai, é porque eu já me julguei e já me aprovei, não importa o que digam.

Burburinho - A banda já passou por várias gravadoras (Warner, Abril Music e agora Deckdisc) e até por uma fase sem gravadora. Por quê?
Roger - Na verdade, só duas, a Warner e a Deckdisc. O 18 anos sem tirar! também era da Deckdisc, na época distribuído pela Abril. A fase sem gravadora é um mistério para mim até hoje. Nunca soube os motivos que fizeram a Warner se desinteressar por nós, e foi mais intrigante ainda ver que nenhuma outra gravadora se interessou por uma banda que nunca deu prejuízo e pelo disco pronto que eu tinha em mãos (o 18 anos sem tirar!), que acabou vendendo 135.000 cópias.

Burburinho - A história do Ultraje a Rigor está repleta de cenas envolvendo censura explícita ou disfarçada. Quais foram as piores? A censura ainda é um fantasma hoje ou os tempos realmente mudaram?
Roger - Bem, todas foram ruins, mas nenhuma foi tão estúpida como quando cortaram a participação de Tonico e Tinoco na música Vamos Virar Japonês, sob a alegação de não ser adequado para uma rádio de rock, tirando totalmente o sentido da composição. Uma mutilação, e acho que foi a única, mesmo em tempos de censura oficial todas as nossas músicas acabaram saindo em disco. Nos tempos da censura oficial, o pior é que eles não diziam qual parte estava censurada, nem por que, apenas proibiam a execução pública. Mas Domingo Eu Vou Pra Praia, atualmente nas rádios, está tocando com uma buzina cobrindo o palavrão e temos tido dificuldade de tocá-la na tv.

Burburinho - Um dos grandes sucessos do Ultraje a Rigor foi Nós Vamos Invadir Sua Praia. Agora vocês atacam com Domingo Eu Vou Pra Praia, O Velho Surfista, Onda... De onde vem essa atração pelas praias?
Roger - Não sei, mas eu adoro praia. Praia para mim era férias, talvez seja isso. Mas Nós Vamos Invadir Sua Praia e Domingo Eu Vou Pra Praia são diferentes em essência. O gosto pelo surf (embora eu não seja surfista, mas faça bodyboarding desde menino, quando ainda se chamava "pegar jacaré") eu sempre tive, pelos filmes de surf, pela música associada a esse estilo e pelo estilo de vida.

Burburinho - Como foi a renovação da banda no início dos anos noventa?
Roger - Foi uma decisão que eu tive que tomar só em relação ao Leôspa, uma das mais difíceis de minha vida, tão difícil que minha mente bloqueava o fato de que já não havia outra alternativa. Maurício já havia saído, assim como o Sérgio Serra, tínhamos "estepes" em seus lugares, e Leôspa, embora talvez ainda tivesse interesse na banda, não se esforçava para melhorar, ao contrário, mostrava-se displicente. Eu não podia aceitar o fato da banda estar desmoronando e acabei informando ao Leôspa que eu queria continuar e que iria escolher outros músicos. Se ele não concordasse em sair, eu iria seguir carreira solo, ou formar outra banda. Foi muito dolorido para mim, Leôspa já era meu amigo antes do Ultraje, foi importantíssimo na formação da banda, mas andava avacalhando, o que era engraçado no começo, mas não servia mais naquele momento em que todas as bandas estavam progredindo. Acabei, talvez meio traumatizado, escolhendo músicos "mais competentes" e mais comportados, o que foi bom por um tempo, me deu sossêgo para prosseguir, mas acabou tirando da banda um componente meio subjetivo e difícil de se perceber, que é a "pegada", o punch do rock. Eu nunca quis que a banda mudasse em nada, gostaria de ser como os Beatles ou os Rolling Stones, em que todos são conhecidos igualmente. Acho que a banda agora está com uma ótima formação e espero que funcione e que dure. Como eu já disse, não é fácil ter uma banda de rock. Mas é bom.

Burburinho - Quais são seus músicos preferidos e quais você considera como influenciadores do estilo Ultraje?
Roger - A lista é gigantesca, mas os Beatles são os maiores. Acho que o "estilo Ultraje" é uma mistura de uma série de coisas que inclui desde rock and roll básico até marchas carnavalescas, passando por heavy metal, progressivo e punk rock mas também inclui música mexicana de filmes de cowboy, trilhas de desenhos animados, música de circo e uma série de outras coisas. Meus guitarristas prediletos são aqueles que fazem mais base, que é uma coisa freqüentemente desprezada, mas que é uma especialidade e não uma deficiência. Todo mundo se refere a mim como "o vocalista do Ultraje", o que eu odeio. Sou um dos guitarristas e o compositor da banda, e gostaria de ser um dos quatro vocalistas do Ultraje, mas acabei sendo praticamente o único que canta, embora mal. Mas voltando ao assunto, minha influência na guitarra vem de músicos como John Lennon, Keith Richards, Pete Townshend, Chuck Berry e Jorge Ben Jor, e de bandas como Deep Purple, Led Zeppelin e Black Sabbath, entre uma centena de outras influências menores.

Burburinho - Os Invisíveis tem a conhecida animação e também a irreverência típica do Ultraje a Rigor, mas ao mesmo tempo parece deixar mais à mostra algumas influências musicais (como I'm Sorry em onda The Police, Me Dá um Olá num revival das baladas dos anos sessenta, o instrumental O Velho Surfista relembrando um pouco o Dick Dale, ou o minimalismo a la Ramones de Me Dá). Foi intencional?
Roger - Bom, quase tudo que eu faço é intencional, mesmo que eu não atinja o alvo. Por exemplo, não era minha intenção que o disco acabasse ficando tão com essa cara de surf music, embora eu tenha ressaltado isso na capa depois que notei o resultado. Acho que I'm Sorry tem mais a ver com The Specials ou The Beat, e Me Dá parece comigo mesmo. Acho que os Ramones (assim como Eddie Cochrane, Bo Diddley e Harry Belafonte) estão mais presentes em Domingo eu vou pra praia, mas tudo isso que você citou tem a ver, além dos Beach Boys, Green Day e uma ou outra coisa. Parece simples em análises mais rasas, mas não é. E é isso que eu acho rico no Ultraje e que eu acho que posso oferecer às novas gerações que só conhecem dos Raimundos para cá. Essa mistura acontece naturalmente, eu nunca penso "vou misturar Black Sabbath com Rita Lee para ver no que dá", eu só vou assimilando as influências e processando-as.

Burburinho - Que disco que não pode faltar na coleção?
Roger - Help!, dos Beatles. Está tudo lá.

Burburinho - Quem seria a Miss Ultraje a Rigor: Zoraide, Marylou ou Giselda?
Roger - Zoraide, minha mulher e musa inspiradora de músicas como Independente Futebol Clube, Ciúme, a própria Zoraide (quando ela era minha namorada) e outras. For the records, o nome dela é Solange.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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