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lemony snicket

livros por Gian Danton

Se você é do tipo que acha a maior pieguice os finais felizes dos filmes americanos, vai adorar a coleção de livros Desventuras em Série, de Lemony Snicket, publicada no Brasil pela Companhia das Letras.

O autor, muito sincero, já começa o volume um, Mau Começo, avisando: "Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos." O livro conta a história dos três irmãos Baudelaire (as pessoas mais infelizes do mundo, segundo o autor): "Violet Baudelaire é a mais velha. Tem catorzes anos e é uma das maiores inventoras de seu tempo. As engrenagens e alavancas de seu cérebro funcionam a todo vapor." "Klaus Baudelaire é um garoto de pouco mais de doze anos que usa óculos, o que pode dar a impressão de que seja amante dos livros. Impressão absolutamente correta. Klaus é um garoto inteligentíssimo e grande leitor." "Sunny Baudelaire é ainda um bebê, mas tem dentes muito afiados que entram em ação à menor oportunidade."

O primeiro livro não se chama Mau Começo por acaso. Já no primeiro capítulo as crianças estão brincando na praia quando recebem a notícia de que os seus pais morreram em um terrível incêndio. Elas acabam sendo adotadas pelo parente mais próximo, um tal de Conde Olaf, um homem revoltante, gosmento, pérfido. O autor diz que sobre ele o melhor é dizer o mínimo possível e concordamos em gênero, número e grau. O Conde Olaf é tão mau que o escritor conta que, para criá-lo, foi obrigado a passar anos mergulhado no mundo do crime. "Não dos crimes reais, é claro. Minha formação é estritamente teórica".

Desventuras em Série é um livro infantil, mas que agrada qualquer um que o leia e tenha QI acima de 100. A narrativa do autor é de um humor cínico e ferino que há muito tempo não se via na literatura. A própria idéia de escrever uma história que não tem, declaradamente, final feliz, é uma audácia sem tamanho - especialmente se lembrarmos que quase tudo hoje tem final feliz, dos filmes às novelas.

Na verdade, a prosa de Snicket lembra muito dois outros grandes nomes da literatura infantil: Monteiro Lobato e Mark Twain. Hoje parece existir uma tendência generalizada para transformar a literatura infantil em algo açucarado. A crítica e o humor (até mesmo o humor negro) parecem ter sido deixados de lado. Quem não leu Lobato pode achar que sua obra é açucarada e acrítica. Ledo engano. Lobato iniciou na literatura fazendo uma crítica feroz à imagem romanceada do sertanejo e com isso criou o Jeca Tatu. Seus livros infantis eram surrealistas e anárquicos. O melhor exemplo disso é A Chave do Tamanho, em que a Emília mexe na chave do tamanho e transforma todas as pessoas em seres pequeninos, com o objetivo de acabar com a Segunda Guerra Mundial. Mark Twain, autor de As Aventuras de Tom Sawyer, tinha um humor extremamente ferino. Em uma de suas histórias mais famosas um dono de circo vai denunciar ao xerife o desaparecimento de um elefante branco. O homem da lei, um verdadeiro burocrata, ao invés de agir, começa a fazer as perguntas mais idiotas, como: "o elefante tem algum sinal que torne o seu reconhecimento mais fácil?".

Desventuras em Série é boa literatura infantil, na melhor linha de Lobato e Twain. E, como todo livro infantil, este tem ilustração. Não vou enganar o leitor. Não são muitas, mas as poucas que existem são ótimas. Brent Helquist consegue transmitir com perfeição o clima criado pelo texto. Há uma certa tendência na ficção-científica, chamada de retrô, em que se conta histórias ambientadas em épocas passadas, mas com inovações tecnológicas de nossos dias. É isso que o desenho e o texto mostram muito bem. A triste história se passa na era vitoriana, mas os personagens convivem com geladeiras, carros e telefones. Outra atração são as referências. Uma óbvia é o nome dos personagens. Baudelaire foi um importante e revolucionário poeta francês. O responsável pela herança dos pequenos irmãos é um homem baixinho, chamado Poe, que tem um filho de nome Edgar. É uma clara referência ao escritor Edgar Allan Poe, o maior literato norte-americano de todos os tempos (que aliás era adorado por Baudelaire). Se não bastasse o ótimo texto, a ótima apresentação gráfica, os ótimos desenhos, o leitor ainda compra a companhia de ótimos escritores. Um livro imperdível. A não ser, é claro, que você goste de histórias felizes.


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