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conversa com cliff pickover

entrevista por Nemo Nox

Conhecido por dúzias de livros de divulgação científica, Clifford Pickover agora se aventura no terreno da ficção-científica com quatro títulos lançados quase simultaneamente: Liquid Earth, The Lobotomy Club, Sushi Never Sleeps e Egg Drop Soup.

Burburinho - Como e por que você migrou dos livros científicos para a ficção-científica?
Cliff - Tenho lido e escrito ficção-científica desde os tempos de colégio. Vários escritores famosos de ficção-científica são também leitores ávidos do gênero. Para muitos, ler ficção-científica desde cedo funcionou como uma semente, da qual cresceu o interesse profissional pela ciência. As especulações sobre o futuro, como poderia ser, sobre tecnologia, biologia, a mente... Os livros de ficção-científica fazem a mente vagar livremente - do nível subatômico ao universo inteiro. São as fronteiras da ciência, a borda fractal entre o presente e o futuro, o conhecido e o desconhecido, a realidade e o embuste. Gosto de definir a ficção-científica como a literatura do limite porque seus temas estão na fronteira entre o que é e o que poderia ser. Certamente, é a literatura da mudança. Além disso, nosso universo é um universo de ficção-científica, recheado de mistério, constantemente flutuando e evoluindo. Muitos dos meus livros de não-ficção, como Black Holes: A Traveler's Guide, Time: A Traveler's Guide, The Stars of Heaven, Surfing through Hyperspace, The Mathematics of Oz e The Loom of God, têm enredos de ficção-científica que estimulam nos leitores um interesse pela ciência.

Burburinho - Foi difícil essa transição da não-ficção para a ficção-científica, tanto na hora de escrever como na hora de conseguir uma editora?
Cliff - Como já escrevo ficção há algum tempo, a transição não foi difícil, ainda que seja necessário um conjunto de habilidades bem diferente de quando se escreve não-ficção. Por exemplo, um novelista precisa aprender, em vez de fazer um longo parágrafo com explicações, a escrever diálogo que pareça natural e a apresentar informações mostrando como um personagem reage. O maior desafio para um novelista é encontrar uma editora. É muito mais fácil achar uma editora para obras de divulgação que para ficção, em parte porque a competição é muito maior. Se compararmos a busca por uma editora para um livro de não-ficção com uma escadaria até a sua casa, então a busca por uma editora para um livro de ficção seria como uma escadaria até a lua.

Burburinho - Por que você lançou quatro livros de uma vez, em vez do ciclo tradicional de escrita-lançamento-escrita-lançamento?
Cliff - Quatro livros em dois meses realmente não segue a tradição, mas não é tão estranho considerando que já escrevi em pouco tempo mais de trinta livros sobre temas que vão da matemática à religião. Consultei vários colegas, e achamos que o impacto audacioso do lançamento quase simultâneo dos livros atrairia muita atenção. Alguns leitores vão querer comprá-los todos de uma vez, e cada livro ajuda a promover os outros.

Burburinho - Quem são seus autores preferidos na ficção-científica?
Cliff - Gosto muito de vários livros. Alguns dos meus favoritos: Passage (Connie Willis), Job: A Comedy of Justice e Number of the Beast (Robert Heinlein), Diaspora (Greg Egan), Snowcrash (Neal Stephenson), He Who Shrank (Henry Hasse), The Mist (Stephen King) e Image of the Beast (Philip Jose Farmer). De não-ficção, gosto de livros como Shibumi (Trevanian) e I. Asimov (Isaac Asimov).

Burburinho - Quais são as qualidades essenciais num escritor de ficção-científica?
Cliff - Se o autor cria personagens interessantes e diálogo natural, já trilhou noventa por cento da estrada para o sucesso. Acho que a forma como se escreve é mais importante que a própria trama. Stephen King, que escreve muito bem, poderia fazer um livro sobre sanduíche de geléia e seria excelente. Um bom exercício quanto ao ritmo da narrativa é não permitir que um parágrafo tenha mais de cinco frases. Mais tarde você pode abrir exceções em alguns lugares se for absolutamente necessário. Se a primeira página não é excepcional, um potencial editor vai jogar o livro inteiro no lixo.

Burburinho - Seus livros de ficção-científica apresentam a idéia de realidades paralelas. Você acredita na existência de universos paralelos, no sentido sugerido por algumas correntes da teoria quântica, ou é somente um cenário ficcional interessante para as suas histórias?
Cliff - Os universos paralelos podem até existir de alguma forma fantasmagórica. Apesar do conceito parecer forçado, alguns cientistas sérios já consideraram essa possibilidade. A tese do Hugh Everett III, Relative State Formulation of Quantum Mechanics, publicada na revista Reviews of Modern Physics, apresenta uma teoria polêmica segundo a qual o universo se multiplica a cada instante em múltiplos universos paralelos. A teoria do físico Andrei Linde diz que os universos se reproduzem constantemente. A cosmologia quântica do Stephen Hawking também sugere a possibilidade de outros universos conectados por buracos negros. A viagem de um universo para outro seria uma possibilidade remota. Alguns cientistas acham que o famoso experimento do fóton e das duas ranhuras prova a existência de universos paralelos, com o fóton de um universo interagindo com o fóton de outro universo.

Burburinho - Liquid Earth apresenta robôs religiosos. Você acredita que as máquinas algum dia serão capazes de executar atos ilógicos ou você considera a religião uma atividade lógica?
Cliff - Acredito que robôs e outras formas de inteligência artificial algum dia ultrapassarão a humanidade. Também acho que poderemos fazer o dowload de nós mesmos para uma máquina e rodar nossas mentes em substratos não-biológicos, raciocinando além dos limites da nossa intuição, sonhando novos sonhos, pensando novos pensamentos. Para responder a outra pergunta, as máquinas podem executar atos ilógicos (o seu computador não faz isso o tempo todo?). Quanto a religião e lógica, uma coisa não precisa ser verdadeira para ser lógica. A religião pode ser lógica, mas não necessariamente verdadeira.

Burburinho - Você já escreveu que "nossos cérebros estão formatados com um desejo pela religião e pela crença num deus onisciente". Como você explicaria então a enorme quantidade de ateus?
Cliff - Os ateus podem estar superando, resistindo ou controlando essa formatação, assim como os humanos estão controlando o resto do nosso ambiente ecológico e biológico. E mesmo ateus podem ter convicções que ultrapassam a lógica ou a ciência. Evoluímos muito desde nossa criação. Nossos cérebros, que evoluíram para nos ajudar a fugir dos leões na savana africana, agora contemplam cáculos complexos e a teoria dos buracos negros.

Burburinho - Você já escreveu sobre os assuntos mais variados, da matemática à religião, dos buracos negros à vida extraterrestre. Existe uma ligação entre tudo isso ou é somente o resultado de uma curiosidade eclética?
Cliff - Todos os meus livros têm como objetivo expandir a mente. Os assuntos estão nos limites da ciência, e fazem o leitor questionar suas crenças básicas. São viagens no mar sem fim dos mistérios científicos e além.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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