burburinho

colônias temáticas e comportamento emergente

internet por Nemo Nox

Um dos equívocos mais comuns ao falar sobre weblogs é tratá-los de forma monolítica. Tomar a parte pelo todo e achar que o universo blogueiro pode ser representado somente por subgêneros como os diários adolescentes ou os relatos tecnológicos, os warbloggers ou os metajornalistas, é fechar-se para as inúmeras possibilidades do formato.

Essas colônias temáticas que surgem naturalmente podem por vezes passar a impressão de conterem uma parcela significativa, tanto quantitativa como qualitativamente, graças à circularidade das referências que oferecem. David linka Doc, que linka Glenn, que linka Chris, que linka Tom, que linka David fechando um dos inúmeros círculos de validação mútua tão comuns na cartografia ciberespacial. Basta um pequeno esforço para escapar dessas órbitas e conhecer outras partes do universo.

Mas se o universo blogueiro não existe como entidade monolítica e sim como coleção de indivíduos e colônias de indivíduos com perfis, métodos e objetivos distintos, como explicar o comportamento aparentemente direcionado e organizado que o fenômeno por vezes exibe como um todo? De onde sai esse impulso que parece fruto de uma vontade coletiva?

No estudo da vida artificial (modelagem de sistemas complexos com características semelhantes às de organismos vivos, um ramo fascinante da ciência misturando biologia, teoria da evolução e simulações de computador), um dos conceitos mais importantes é o do comportamento emergente. Organismos individuais possuem comportamentos simples, grupos de organismos com comportamentos simples podem gerar comportamentos complexos quando agem coletivamente. Entidades programadas com instruções diretas, teoricamente capazes de executar somente ações simples, quando reunidas em grupos transformam essa coexistência numa combinação imprevista de resultados aparentemente saídos de um objetivo consciente. Quando o sistema é analisado, porém, constata-se, como já era sabido a princípio, que as únicas instruções fornecidas continuam sendo as diretivas de cada indivíduo e que elas não apontam o caminho tomado pelo grupo. Não se trata de movimentos organizados ou de ações planejadas, mas simplesmente de comportamento emergente, resultado natural da reunião de entidades simples confirmando a máxima aristotélica que o todo é maior que a soma das partes. Da mesma forma que milhões de células diferentes se organizam naturalmente para formar um ser vivo, outros sistemas complexos são também produto de partes sem qualquer controle sobre o comportamento do todo.

A coletividade formada pelos weblogs, na qual a organização consciente não vai além dos pequenos grupos das colônias temáticas e onde, graças à quantidade crescente de indivíduos, o conhecimento do todo é impossível para cada parte, funciona de certa forma como as experiências da vida artificial. Seguindo somente suas próprias diretivas, cada blogueiro representa uma célula desse organismo complexo, que avança sem organização planejada mas demonstra um comportamento definido, emergente da microatividade de cada um de seus elementos. Tentar entender o universo blogueiro como um movimento consciente e monolítico demonstra falta de percepção da forma orgânica com que se comporta e evolui. Muito mais interessante e produtivo é aceitar a individualidade inerente dos weblogs e tentar entender o fenômeno com todas as características caóticas e fractais que possui.


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