burburinho

signs

cinema por Nemo Nox

Pequenos flashbacks numa seqüência final que dá sentido ao filme. Essa é a fórmula previsível que o diretor M. Night Shyamalan usou em The Sixth Sense e Unbreakable, e que agora repete em Signs. E essa nem é a pior parte: ele continua tentando explicar o mundo com metafísica pomposa.

The Sixth Sense foi um sucesso basicamente pela surpresa do seu final. Não tinha uma história muito consistente mas conseguiu enganar uma fatia considerável do público para atingir recordes de bilheteria. Em seu filme seguinte, Unbreakable, o diretor M. Night Shyamalan resolveu repetir a fórmula e reservou mais uma surpresa previsível para concluir um roteiro claudicante. Agora, com Signs (EUA, 2002), ele otimisticamente volta ao mesmo modelo. Pior, usa essa estrutura narrativa questionável como veículo para uma metáfora religiosa.

Graham Hess (Mel Gibson, recém-saído de sucessos como We Were Soldiers e What Women Want) é um pastor que perdeu a fé ao ver sua esposa morrer num acidente de automóvel. Ele mora numa fazenda da Pennsylvania com seus dois filhos (Rory Culkin e Abigail Breslin) e um irmão (Joaquin Phoenix, de Gladiator e Quills). Se o foco em The Sixth Sense era nos fantasmas, e em Unbreakable nos super-heróis, Signs destaca os extraterrestres. E como estamos numa comunidade rural, a manifestação principal dos alienígenas se dá através dos símbolos gigantescos que fazem nas lavouras, os famosos crop circles.

Apesar de alguns fanáticos ainda afirmarem que os crop circles só poderiam ser obra de tecnologia extraterrestre, já se sabe que são facilmente feitos por qualquer brincalhão com algumas cordas, pranchas de madeira e muito tempo livre. Vários deles, como os ingleses Doug Bower e Dave Chorley, chegaram mesmo a confessar publicamente a autoria de uma série de marcas apressadamente atribuídas a alienígenas. Signs explora a possibilidade de se tratar na verdade de um sistema de auxílio à navegação para discos voadores. Mas uma possível invasão do nosso planeta é somente um pretexto para Shyamalan contar a história de como a família Hess reage frente a uma ameaça externa.

A narrativa de Signs é bem mais sólida que em trabalhos anteriores do diretor, o elenco é eficiente, e a música de James Newton Howard lembra por vezes alguns clássicos hitchcockianos, mas mesmo assim o filme não convence. O que poderia ser uma boa aventura de ficção-científica ou um interessante estudo de comportamento familiar perde-se numa inútil pregação metafísica. A tese de Shyamalan é que coincidências não existem e tudo acontece por uma razão pré-determinada. A asma do filho, a mania da filha com copos d'água, as últimas palavras da esposa, tudo se junta como se fosse um puzzle místico. O que o diretor não menciona, porém, é que encaixes perfeitos como esses só ocorrem no mundo mágico do cinema. Na vida real, onde não existe um roteirista organizando os detalhes, o que temos é mesmo uma bela coleção de coincidências. Que podem até ser poéticas em alguns casos, mas nunca pré-determinadas.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.