burburinho

as crônicas de nárnia

livros por Nemo Nox

Clive Staples Lewis (1898-1963) foi um homem intelectualmente incansável. Seu amigo Owen Barfield dizia que existiam três Lewis diferentes: o respeitável crítico e professor de Oxford, o autor de ficção-científica e livros para crianças, e o escritor popular e pensador cristão. Realmente Lewis atuou em muitos campos, mas seu maior sucesso de público e de crítica foi, sem dúvida, As Crônicas de Nárnia, publicadas em sete volumes entre 1950 e 1956.

Em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa (The Lion, the Witch and the Wardrobe), primeiro volume da série, quatro crianças vão viver numa nova casa. Lá encontram um guarda-roupa que é na verdade um portal mágico para o mundo de Nárnia, uma terra povoada por animais falantes e outros seres fantásticos. O lugar é dominado por uma feiticeira e é inverno todo o tempo, mas uma profecia indica que tudo mudará quando quatro reis e rainhas sentarem nos quatro tronos do castelo de Cair Paravel. A feiticeira tenta matar as crianças para impedir a volta do verdadeiro soberano de Narnia, o magnífico leão Aslan. As aventuras sucedem-se, as crianças crescem e tornam-se adultos, mas quando retornam para o mundo real ainda são crianças, pois a passagem do tempo não é igual nos dois universos.

As novas edições de As Crônicas de Nárnia trazem os livros numa ordem diferente da que foi escrita por Lewis, e O Sobrinho do Mago (The Magician's Nephew) é geralmente a primeira história, porque explica a origem do armário mágico e narra a criação de Nárnia (na verdade, O Sobrinho do Mago foi o sexto livro da série original). As crianças Digory Kirke e Polly Plummer flagram o tio de Digory em plenos experimentos mágicos. Acabam usando anéis que os tranportam ao mundo de Charn, congelado no tempo, onde despertam a malvada rainha Jadis, que os segue até outro mundo, Nárnia. Lá ela revela ser uma feiticeira (a mesma de O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa) e o leão Aslan tem que entrar em cena para controlar a situação. No final, Digory volta para o mundo real com uma maçã mágica que curará a doença de sua mãe. Ele planta o caroço da maçã no quintal e, anos depois, quando Digory já é um velho professor, um raio derruba a macieira e a sua madeira é usada para construir um guarda-roupas. Sim, o mesmo da história anterior.

Os volumes seguintes contam várias outras aventuras nas terras de Nárnia, misturando personagens do mundo real - as crianças do primeiro episódio, que agora são reis e rainhas - com um vasto elenco de narnianos. Pela ordem atual de publicação, seguem-se O Cavalo e Seu Menino (The Horse and His Boy), Príncipe Caspian (Prince Caspian), A Viagem do Peregrino da Alvorada (The Voyage of the Dawn Treader), A Cadeira de Prata (The Silver Chair) e A Última Batalha (The Last Battle).

As Crônicas de Nárnia são, teoricamente, livros para crianças, mas muitos adultos se encantam com as fábulas narnianas. Talvez porque por trás delas esteja uma base com séculos de história, nada menos que a Bíblia dos cristãos. Lewis, religioso fervoroso, usou a série (particularmente O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa e O Sobrinho do Mago) para apresentar de forma palatável às crianças alguns episódios bíblicos. Felizmente, conseguiu dar uma roupagem atraente ao conjunto e, o mais importante, não ficou preso às tramas bíblicas em todos os livros. Mas a catequese subliminar aparece com força em muitos deles.

O leão Aslan surge sempre como uma figura sagrada. Em O Sobrinho do Mago, temos um Gênesis narniano, a descrição de como o mundo de Nárnia foi criado, com Aslan no papel de criador. O paralelo com o Gênesis cristão é óbvio, ainda que as correspondências alegóricas não sejam exatamente as mesmas. Em vez de criar a luz e depois a terra, como na Bíblia, em Nárnia o solo precede a luz, por exemplo. Mas ainda que a ordem seja diferente, os resultados são os mesmos, com a criação dos animais a partir da terra e o sopro de vida que os anima saindo da boca do leão. E neste paraíso narniano, as crianças Digory e Polly são ao mesmo tempo espectadores (a narrativa é feita a partir do seu ponto de vista) e participantes (Digory é explicitamente chamado de "filho de Adão" por Aslan). Não poderia faltar, é claro, a famosa maçã, que em O Sobrinho do Mago serve de ponto de partida (semente / árvore / armário) para a abertura de Nárnia a outros personagens.

As referências bíblicas são inúmeras e podem ser encontradas em todos os livros da série (existe mesmo uma teoria afirmando que cada uma das histórias seria um estudo sobre um dos sete pecados capitais). Em O Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa, a ação passa do Velho Testamento (Gênesis) para o Novo Testamento, com Aslan no papel principal de salvador de Nárnia. Como Jesus Cristo, ele tem poderes de cura e palavras de amor ao próximo. As crianças são seus apóstolos, com o pequeno Edmund encarnando o traidor Judas. Tentado pela bruxa através da gula (e com o atenuante de ser vítima de doces encantados), ele acaba sendo instrumento fundamental para a execução de Aslan, que, biblicamente, o perdoa. E após uma morte cerimonial, com direito a via crucis, o leão sagrado ressuscita fechando e confirmando todo o círculo alegórico.

O grande mérito de Lewis foi transformar temas potencialmente desinteressantes para crianças em aventuras agradáveis, e não ficar preso aos conceitos iniciais. Na verdade, os melhores livros da série são os que contêm menos correspondências religiosas (apesar de nenhum deles estar livre delas), como por exemplo O Cavalo e Seu Menino. O importante ao ler ou ao recomendar As Crônicas de Nárnia é lembrar que não se trata simplesmente de inocentes histórias infantis, mas de uma forte catequese subliminar.


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