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contato

cinema por Nemo Nox

Existe gente em outros planetas?", pergunta a menina Ellie ao seu pai. "Não sei", responde ele, "mas se só nós existirmos, seria um terrível desperdício de espaço". Contato (Contact, EUA, 1997), de Robert Zemeckis, começa com uma extraordinária seqüência de computação gráfica, uma viagem pelo cosmos que por si só já valeria o preço do ingresso.

Partindo da familiar atmosfera terrestre e da poluição sonora das emissões de rádio e televisão de hoje, vamos recuando no espaço, passando pela Lua, por Marte, pelo cinturão de asteróides, por Júpiter, e assim por diante até sairmos do sistema solar e da Via Láctea. Enquanto isto, as emissões sonoras vão diminuindo e voltando no tempo. O recuo continua, silencioso, até percebermos que nunca saímos da Terra e que simplesmente acompanhamos a imaginação da pequena Ellie.

Contato é fruto da colaboração entre o diretor Zemeckis e o autor do livro em que se inspirou, Carl Sagan. Como é habitual em adaptações da literatura para as telas, muita coisa foi modificada, personagens condensados, situações eliminadas, mas a força da idéia original permaneceu, neste caso, intacta.

Jodie Foster interpreta a doutora Eleanor Arroway, a Ellie das seqüências iniciais, agora adulta. Transportando a paixão da infância pelo radioamadorismo para a radioastronomia, ela dedica sua vida ao projeto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence, Busca de Inteligência Extraterrestre), varrendo os céus com gigantescas antenas de captação à procura de sinais emitidos por civilizações alienígenas.

Como seria de esperar, e este é o evento central do filme, a doutora Arroway consegue, depois de muitos anos de pesquisa, localizar um sinal inequivocamente não-natural (uma seqüência de números primos) vindo do sistema Vega. A partir daí, começam os jogos políticos, as negociações de bastidores, as histerias religiosas, o circo da mídia. Mais tarde, descobre-se que os sinais alienígenas contêm instruções precisas para a construção de uma máquina de utilidade incerta, possivelmente um meio de transporte até os originadores das mensagens.

Aqui surge uma das grandes diferenças entre Contato e grande parte dos filmes envolvendo seres extraterrestres: a história não é sobre alienígenas, mas sobre seres humanos. Qual seria a nossa reação ao sermos confrontados com a existência confirmada de vida inteligente em outros planetas? O que mudaria na nossa ciência, na nossa religião, na nossa política, nos nossos costumes?

Contra a corrente habitual da ficção-científica cinematográfica, Zemeckis permite que a história seja não só recheada de ação, efeitos especiais e conflito dramático, mas que sirva também de base discussão para assuntos mais profundos, como a morte e a existência de deus. Os conflitos entre a religiosidade e o cientificismo (Arroway x Joss), entre o compromisso político e a recusa em negociar princípios (Arroway x Drumlin), entre as satisfações emocionais e a carreira profissional (Arroway x Arroway), dão uma sólida base reflexiva a Contato.

Jodie Foster, num de seus melhores papéis, está cercada por outros talentos indiscutíveis. John Hurt brilha como o megamilionário careca S.R. Haden, mistura de Howard Hughes e Bill Gates. James Woods e Angela Bassett representam as forças políticas por trás de cada passo que damos, e Tom Skerrit está perfeito como o cientista oportunista subsidiado pelo governo. Um pouco mais fraco, mas ainda assim sem comprometer o papel, é Matthew McConaughey, interpretando o reverendo Palmer Joss.

Como já havia feito em Forrest Gump, Zemeckis coloca em cena personagens reais interagindo com a sua história. Alguns foram contratados para interpretar a si mesmos, como o famoso jornalista da rede CNN, Bernard Shaw. Outros aparecem graças à magia dos efeitos especiais, como o presidente Bill Clinton.

É impossível evitar a comparação com o marco da ficção-científica cinematográfica que foi 2001: Uma Odisséia no Espaço. Trinta anos depois, a dupla Zemeckis-Sagan percorreu um caminho paralelo ao de seus antecessores Kubrik-Clarke. Onde tínhamos um monolito negro trazido por alienígenas, agora aparece uma máquina projetada por extraterrestres e construída por humanos. Onde o grande vilão era HAL 9000, um computador com problemas de personalidade, agora são os fanáticos religiosos vítimas da tecnofobia. E se a viagem de luzes e cores pelos portões intergalácticos é a mesma (guardadas as diferenças tecnológicas permitidas pelos efeitos especiais de hoje), quem espera o viajante (Bowman em 2001, Arroway em Contato) do outro lado não é mais o feto flutuante e enigmático de 2001, mas o falecido pai com todo o seu carinho e sua simpatia. Até mesmo o nome dos protagonistas traz uma coincidência curiosa: Bowman, o arqueiro, e Arroway, o caminho da flecha.


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