burburinho

a saga dos plantagenetas

livros por Jade Boneff

Quem gosta de história e tem uma queda pela Idade Média pode se deliciar com um banquete de treze pratos - ou treze volumes - sobre os reinos da França e Inglaterra desde o século XII até a Guerra das Rosas, no século XV. A Saga dos Plantagenetas, escrita pela inglesa Jean Plaidy e editado no Brasil pela Record, narra as peripécias e desastres da família que governou a Inglaterra por mais de três séculos, atravessando os períodos conturbados da Guerra dos Cem Anos e finalmente dando lugar à dinastia Tudor.

O livro inicial, Prelúdio de Sangue (The Plantagenet Prelude) fala da ascensão de Henrique II ao trono inglês, e o reinado do jovem vigoroso que se casou com a voluntariosa Eleanor de Aquitânia. O casal, que vivia aos tapas e beijos e protagonizava baixarias que não passariam pela cabeça de Nélson Rodrigues, teve filhos tão marcantes para a história quanto Ricardo Coração de Leão e o desastroso João Sem-Terra, responsável pela revolta dos barões que culminou com a Magna Carta.

A pesquisa histórica é intensa e relevante, e sua precisão compensa em grande parte o tom folhetinesco e por vezes meloso com que a autora descreve as relações entre os personagens. Escrevendo em terceira pessoa, Plaidy exagera nas cores românticas e dramáticas, embora os fatos históricos já sejam muitas vezes surpreendentemente caricatos. Os boatos que sobreviveram aos séculos não encontraram respaldo nas obras desta coleção, que os relata como eram - rumores talvez verdadeiros, talvez infundados. E não eram poucos, variando da homossexualidade de Ricardo Coração de Leão à relação suspeita entre Henrique II e seu célebre chanceler Thomas Beckett.

O leitor poderia encontrar dificuldades em acompanhar a trajetória de famílias que, atendendo aos hábitos medievais, não tinham qualquer originalidade e davam a seus filhos os mesmos nomes (Ricardo, Henrique, Guilherme, Joana, Isabella, Eleanor) que seus antepassados e nobres contemporâneos. O resultado é uma infinidade de homônimos diferenciados pelos locais de nascimento - uma bagunça generalizada. Para facilitar, os livros trazem árvores genealógicas completas, que são uma preciosa e freqüente consulta.

O segundo volume, O Crepúsculo da Águia (The Revolt of the Eaglets), narra os últimos momentos do reinado de Henrique II, um monarca forte e respeitado que a esta altura é odiado e traído pelos filhos, sob a influência rancorosa da esposa. Sobre este período, vale também assistir ao filme O Leão no Inverno (The Lion in Winter, Inglaterra, 1968, de Anthony Harvey), com Peter O'Toole, Katherine Hepburn, Timothy Dalton e Anthony Hopkins.

A ascensão de Ricardo ao trono é marcada pelo otimismo que o herói de tantas batalhas provoca nos ingleses. Mas sua ida às cruzadas e morte repentina na volta, narrados em O Coração do Leão (The Heart of the Lion), mergulham a Inglaterra no caos. A ausência de herdeiros de Ricardo divide a Europa em duas facções - a que defende o direito do irmão caçula João, próximo filho de Henrique e Eleanor, e a que acredita em Artur, filho adolescente de um irmão mais velho de Ricardo, já falecido.

A disputa é resolvida em O Príncipe das Trevas (The Prince of Darkness). Diz a lenda que Eleanor, sabendo do caráter de seu filho mais novo, disse um dia a suas criadas que era melhor ela e Henrique terem morrido antes de produzir tal criatura. João, não contente em pôr a Inglaterra de joelhos, em total humilhação, ainda destruiu todas as vidas que tocou, começando com o assassinato do sobrinho Artur. Seu casamento com a bela e inescrupulosa Isabella de Angoulême foi bastante parecido com a de seus pais, se considerarmos os escândalos e baixarias que entraram para a história. Entre eles, destacou-se o célebre episódio em que Isabella acorda durante a noite para descobrir o corpo do amante mais recente, castrado e enforcado no dossel de sua cama, uma cortesia do marido ciumento.

A Batalha das Rainhas (The Battle of the Queens), quarto volume da série, fala da rivalidade entre as rainhas Isabella da Inglaterra e Blanche da França, e sua luta pelo domínio na Europa. Ao entregar o trono inglês para seu filho, Isabella passa a tramar contra a França, apenas pelo prazer de destruir Blanche, num estratagema digno de Janete Clair.

O volume seguinte, A Rainha de Provence (The Queen from Provence) trata do reinado do dócil Henrique III, empenhado em ser feliz no casamento e apagar a imagem escandalosa da família real. O marido bom e fiel era incompatível com o pulso firme necessário para tirar a Inglaterra da miséria, e foi com certo alívio que os súditos ingleses notaram o caráter do filho de Henrique, que traria o país de volta à glória.

Eduardo I (Edward Longshanks), retratado no sexto volume da série, trouxe tamanha prosperidade e segurança, que ninguém imaginaria o golpe que se seguiu, quando o filho Eduardo II, homossexual assumido, fútil e vaidoso, entrega o país nas mãos de seus amantes. A humilhação da rainha Isabella, princesa de França, suscita rebelião e assassinato, descritos em As Loucuras do Rei (The Follies of the King).

O filho de Eduardo e Isabella parece sair mais à mãe do que ao pai. Eduardo III governa com sabedoria e tranqüilidade, até que a morte do rei da França abre caminho para o grande sonho dos ingleses - a conquista do trono francês. O início da Guerra dos Cem Anos é descrito em O Juramento do Rei (The Vow on the Heron), nono volume da série.

Passagem para Pontefract (Passage to Pontefract) talvez seja o melhor da coleção. Descreve com habilidade um período confuso da história inglesa, quando o filho do Príncipe Negro, Ricardo, assume o trono ainda menino. Suas trapalhadas no governo levam ao desastre, e a casa Plantageneta terá que buscar um representante mais adequado.

A Estrela de Lancaster (The Star of Lancaster) fala de um período exaustivamente retratado. Henrique V, de Shakespeare, e a adaptação homônima para o cinema, de Kenneth Brannagh, fazem mais jus à história do que este volume. No entanto, é leitura obrigatória para se entender o fim da guerra e a conquista da coroa francesa pela Inglaterra. Já o volume seguinte, Epitáfio para Três Mulheres (Epitath for Three Women), é outra história. Seria difícil não ser um bom livro, em se tratando de assuntos como o nascimento da dinastia Tudor e os feitos da santa guerreira Joana d'Arc.

A Saga dos Plantagenetas termina no décimo-terceiro livro, A Rosa Vermelha de Anjou (The Red Rose of Anjou), que expõe o combate entre as casas de Anjou e Lancaster pela sucessão do trono inglês. Vale destacar a fidelidade da autora na descrição do evento no jardim, quando a corte escolhe rosas vermelhas ou brancas para anunciar de que lado vão lutar.

No todo, é uma coleção obrigatória para quem gosta deste período da história. Há que se ter paciência com o romantismo exacerbado da autora e sua caracterização um pouco exagerada dos personagens, e aproveitar uma pesquisa de valor elevado. Apesar de haver farta literatura disponível sobre o assunto, a Saga dos Plantagenetas é a única coleção disponível no Brasil que cobre um período tão extenso da Idade Média. Para se ter a visão francesa de certos episódios, vale a coleção Os Reis Malditos, de Maurice Druon, que oferece um panorama menos romanceado, mas com linguagem mais rebuscada.

Jean Plaidy foi apenas mais um dos pseudônimos da inglesa Eleanor Alice Burford Hibbert (1906-1993). Sob este nome, ela publicou mais de 70 romances históricos, notadamente sobre as famílias reais inglesas. Seu mais famoso pseudônimo, porém, era Victoria Holt, usado na publicação de 18 romances de mistério, incluindo seu primeiro bestseller, The Mistress of Mellyn, de 1960. Eleanor publicou ainda vários outros romances, sob os nomes de Elbur Ford, Philippa Carr, Kathleen Kellow, Ellalice Tate e Eleanor Burford. Pouco se sabe sobre sua vida pessoal, além do fato de ter sido educada em escolas particulares inglesas e ter se casado com George Hibbert. Durante a Segunda Guerra, Eleanor e o marido moraram na região da Cornualha, onde a praia de Plaidy deu origem ao seu pseudônimo.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
Copyright © 2001-2005 Nemo Nox. Todos os direitos reservados.