burburinho

cyrano de bergerac

teatro por Nemo Nox

Existiu realmente um Cyrano de Bergerac, na primeira metade do século XVII. Mas, apesar de ser um escritor mediano (seu livro mais famoso, entre a fantasia e a ficção-científica, é Voyage dans la Lune et Histoire comique des etats et empires du Soleil), possivelmente teria sido relegado para o esquecimento se não fosse a inspirada peça de Rostand.

Edmond Rostand nasceu em Marselha em 1868, filho de um poeta. Formou-se em Direito, mas desde cedo dedicou-se ao teatro, escrevendo peças de sucesso como Le Gant Rouge a partir dos vinte anos de idade. Nada se comparou, porém, a Cyrano de Bergerac, que foi lançada com o famoso Benoit Constant Coquelin no papel principal (é possível que a peça tenha sido escrita com Benoit em mente, já que o manuscrito é dedicado a ele). Passada na mesma época em que o verdadeiro Cyrano viveu, a história conquistou de imediato o coração dos franceses com suas tramas de amor, seus duelos de espadas e, principalmente, o humor fino e inteligente dos diálogos. Até a sua morte em 1918, Rostand nunca conseguiu escrever outra peça que repetisse o sucesso de Cyrano de Bergerac.

Paris, 1640. Cyrano de Bergerac é um talentoso poeta e exímio espadachim, integrante da companhia militar chamada Cadets de Gascogne. Mas ele possui um nariz absurdamente comprido, que lhe dá uma aparência ridícula para acompanhar seus dotes mentais e físicos. Apaixonado pela própria prima, Roxane, ele se acredita demasiadamente feio para merecer o seu amor. Quando Christian de Neuvillette, um jovem nobre, se junta aos Cadets de Gascogne e também se enamora de Roxane, Cyrano acaba assumindo o papel de protetor do rival, a pedido da prima. Como Christian é, digamos, pouco dado a exercitar os neurônios, sobra para Cyrano escrever suas cartas de amor. Roxane, é claro, apaixona-se pelo homem que escreve aqueles maravilhosos textos, sem suspeitar que é o brilhante primo e não o simplório nobre.

Com esta trama básica, Cyrano de Bergerac desenvolve-se em cenas de amor e episódios de batalha, sempre com o protagonista mostrando que sua língua ferina é tão afiada quanto a sua espada. O humor, em tiradas sutis, está presente em todo o texto, mas se a primeira metade pode ser considerada uma comédia, a partir de certo ponto o tom muda e vai se tornando bem mais sombrio. O final da peça é emocionante, daqueles que deixam as plateias enxugando as lágrimas quando as cortinas se fecham e as luzes se acendem. E Rostand brilha nas referências a clássicos da época, de Os Três Mosqueteiros (comparação óbvia para os Cadets de Gascogne) a Romeu e Julieta (com uma paródia da famosa cena do balcão).

Na Broadway, Cyrano foi interpretado em 1947 por Jose Ferrer, que recebeu o prêmio Tony pelo seu trabalho (outro Cyrano premiado com um Tony foi Christopher Plummer, pela versão musical de 1974). Ferrer também interpretou o papel principal da versão cinematográfica de 1950, com direção de Michael Gordon, e dessa vez levou um Oscar. Mais recentemente, em 1990, Gerard Depardieu foi o Cyrano do cinema francês, um papel perfeito para o ator (também indicado ao Oscar), dirigido por Jean-Paul Rappeneau. Roxane é uma versão curiosa da mesma história, com a ação transportada para os dias de hoje e os Cadets de Gascogne substituídos pelos bombeiros voluntários de uma cidadezinha norte-americana. Surpreendentemente, Steve Martin (como Cyrano) e Darryl Hanna (como Roxane) conseguem manter algo do encanto do original, e apesar de ainda ser uma comédia leve serve como interessante contraponto ao Cyrano de Rostand.


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