burburinho

o dom da mentira

miscelânea por David Weinberger

Os mentirosos estão por todos os lados. Um vencedor do prêmio Pulitzer mentiu aos seus alunos sobre ter participado na guerra do Vietnam. Um congressista pode ter mentido sobre relações sexuais com uma estagiária. Um candidato local foi apanhado na mentira quando tentava evitar o pagamento de um empréstimo. Poderíamos pensar que os norte-americanos do século XXI são as pessoas mais honestas da história, chocadas e escandalizadas com alguém que mente para se beneficiar. Estamos desenvolvendo uma política de tolerância zero para a mentira.

Mas é claro que todos nós mentimos o tempo todo, todos os dias, sobre tudo. Maquiamos nossos currículos, exageramos nossos feitos diários - poxa, uma vez eu menti para um telemarqueteiro. Então por que estamos tão surpresos agora com a revelação que os políticos, entre outros, mentem? Isso costumava a ser a base do nosso caráter.

Não é só o velho puritanismo do qual este país nunca chegou a escapar: padrões angelicais que aplicamos aos humanos para nos sentirmos superiores aos que falham. Há algo mais perturbador sobre isto. Nossas interações sociais são tão ricas e complexas, com tantos medos e motivações e desejos misturados num ensopado de interesses em conflito, que a mentira em todas as suas variações é uma parte inseparável do ser humano.

As pessoas não mentem sozinhas. Mentir é uma atividade social. O desejo de nos limitarmos a dizer somente a verdade é um desejo de simplificar nossa natureza social. A verdade se apresenta em frases curtas e simples, mas nossas vidas sociais são longos fios, desfiando-se e embaraçando-se, reflexão e refração entre o que eu queria dizer e o que você queria ouvir. Se só disséssemos o que sabemos ser verdade, teríamos conversações tão interessantes como as das formigas soltando feromonas para marcar o caminho. Uma política de tolerância zero para a mentira, se bem-sucedida, faria do nosso tempo juntos mais uma senteça na prisão que uma vida compartilhada.

É claro que devemos punir os mentirosos que causam danos reais aos outros. Mas não nos comportemos como se a mentira fosse um pecado só praticado ocasionalmente por gente detestável. Nós, humanos, mentimos. E somos melhores graças a isso.


pensamentos despenteados para dias de vendaval
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