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transmetropolitan

quadrinhos por Nemo Nox

Os quadrinhos já viram dezenas de personagens atuando na área jornalística, de Clark Kent a Peter Parker, passando por Brenda Starr, Tintin, Peninha, e muitos outros. Mas ninguém mostrou o poder da imprensa de forma tão original como Warren Ellis (texto) e Darick Robertson (arte) em sua série Transmetropolitan, protagonizada pelo emblemático Spider Jerusalem.

A história passa-se num futuro cyberpunk, com sofisticados recursos de criogenia, nanotecnologia, manipulação genética, e outros temas típicos da ficção-científica. Mas o foco de Transmetropolitan ainda é o relacionamento interpessoal, o conflito cidadão versus cidade, como as pessoas se encaixam e reagem num mundo diferente, sendo basicamente as mesmas desde a pré-história.

Transmetropolitan começa com um Spider Jerusalem barbudo e cabeludo, auto-exilado no topo de uma montanha durante cinco anos, escondido do mundo e vivendo do que recebeu pelo seus livros de sucesso Waving and Drowning e Shot in the Face. Mas este isolamento está prestes a terminar, porque o seu editor ameaça processá-lo se não receber os dois livros restantes do contrato. E Spider só consegue produzir em meio ao caos urbano com o qual tem uma relação de amor e ódio. A grande metrópole o espera, e também um emprego no jornal The Word.

Após as vinte páginas iniciais, em que aparece coberto de pelos, Spider finalmente recebe uma depilação completa numa unidade higiênica ativada por voz (somente um entre os muitos tecnobrinquedos que aparecem na série) e revela-se na figura calva e amplamente tatuada que voltará a circular pela urbe sem nome em busca da notícia. Para ele, um processador de textos é uma arma e o jornalismo é uma missão.

A primeira reportagem depois de voltar do retiro na montanha é sobre Fred Christ e seu grupo de transitórios, no bairro/gueto chamado Angels 8. São pessoas que resolveram mudar de espécie através de um sofisticado processo de ligações morfogenéticas, o que os deixa temporariamente metade humanos metade alienígenas. Mas o establishment não gosta de ter os transitórios como símbolo do descontentamento e está em busca de uma desculpa para os massacrar. Pouco mais de vinte e quatro horas se passaram desde seu retorno à cidade e Spider já está no centro da ação, dando a sua versão personalíssima dos acontecimentos. E isto é só o começo de suas aventuras.

Spider Jerusalem é ao mesmo tempo anti-social e preocupado com os seus semelhantes. Desencantado mas ativamente utópico. Basicamente, ele ama as pessoas mas não suporta a sua presença. Sem poderes especiais de super-herói, e tão falível e perturbado como qualquer ser humano, Spider compensa suas deficiências emocionais com uma grande habilidade na escrita e com aquela mítica característica perseguida por legiões de jornalistas: o faro. Escolhendo o tema com precisão, colocando-se no lugar certo e na hora certa, Spider usa a palavra para modificar o futuro. Relatando, denunciando, opinando, ele prova mais uma vez que a pena é mais poderosa que a espada. Mesmo quando a pena é digital e a espada é a laser.


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